EFE/EPA/MIRAFLORES PALACE PRESS OFFICE
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Estratégia de Caracas é reflexo da gravidade da crise venezuelana

Ao admitir que seu governo trabalhar para manter a 'estabilidade financeira e tranquilidade da Venezuela', Nicolás Maduro reconheceu o impacto dos problemas financeiros do país

Kirk Semple e Clifford Krauss* / NYT, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2017 | 05h00

Com a ameaça de um calote pairando sobre a Venezuela, o presidente Nicolás Maduro anunciou na quinta-feira que seu governo iniciará uma reestruturação e refinanciamento da dívida externa do país. 

Sanções dos EUA são trava a plano de Maduro de refinanciar dívida externa

Falando em rede nacional de TV, ele declarou que seu governo está travando “uma batalha pela estabilidade financeira e tranquilidade da Venezuela”. Foi o reconhecimento do quão graves se tornaram os problemas financeiros do país, colocando em dúvida o futuro da Venezuela às voltas com uma crise econômica que tem causado uma terrível escassez de alimentos e remédios.

Maduro culpa em parte pela crise o governo de Donald Trump, que ele acusa de comandar uma “guerra econômica” por meio de sanções econômicas com o objetivo de impedir Caracas de contrair novas dívidas.

“Não existe nenhuma maneira de reestruturar essa dívida face às atuais sanções americanas, mas o governo pode estar esperando que os proprietários dos títulos pressionem o governo Trump para estabelecer uma exceção no caso”, disse Risa Grais-Targow, diretor da empresa de análise de risco Eurasia Group.

Diego Ferro, codiretor de investimentos da Greylock Capital Investment, fundo hedge de Nova York que tem investimentos na estatal PDVSA, afirmou que o anúncio da reestruturação pode dar a Maduro algum tempo para tratar com os detentores de títulos e a população venezuelana. “As pessoas já esperavam um atraso no pagamento. A partir de agora eles pelo menos têm alguns meses para apresentar uma proposta. Dependerá do que oferecerão em termos de pagamento da dívida e dos juros”.

Maduro deseja evitar um calote que pode resultar em anos de batalhas legais internacionais entre os credores pelo controle dos ativos da PDVSA fora da Venezuela, incluindo sua refinaria nos EUA, a Citgo, e navios petroleiros.

“A Venezuela não dará um calote estratégico”, disse Miguel Angel Santos, pesquisador no Center for International Development em Harvard. “Se o fizer será porque está realmente sem nenhum tostão.”

No caso de o país entrar em default, as exportações de petróleo seriam interrompidas, forçando o governo a buscar novas maneiras de manter a commodity do país no mercado internacional, incluindo uma dependência cada vez maior da Rosneft, empresa petrolífera russa, afirmam analistas.

Nos últimos anos a PDVSA tem deixado cada vez mais os investidores e o mercado sem saber até o último minuto se liquidará suas dívidas. Com a empresa deparando com o vencimento, na semana passada, de títulos separados, os mercados estavam nervosos em meio aos sinais contraditórios do governo sobre sua habilidade para pagar. 

A Venezuela tem uma dívida externa estimada em US$ 150 bilhões, a maior parte desse montante contraída nos últimos anos quando os preços do petróleo estavam a mais de US$ 100 o barril. A forte queda dos preços provocou a crise e especialistas acham que um calote é quase certo, salvo se os preços do petróleo se recuperarem, subindo para mais de US$ 75 o barril - bem acima dos valores atuais.

Com mais títulos de dívida a vencer nos próximos meses, o governo e a PDVSA ofereceram acordos de leasing para companhias chinesas e russas para transferir o controle operacional de uma ou duas refinarias, segundo o serviço de noticias sobre energia e commodities Argus. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* KIRK SEMPLE E CLIFFORD KRAUSS SÃO JORNALISTAS

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