EUA admitem erro e dizem ter ordenado ataque a hospital

EUA admitem erro e dizem ter ordenado ataque a hospital

Diante da Comissão das Forças Armadas, general fornece informações sobre bombardeio que atingiu centro de atendimento da Médicos Sem Fronteiras

REUTERS, EFE e AFP , O Estado de S. Paulo

06 Outubro 2015 | 22h36

Um dia depois de atribuir a Cabul o pedido de um ataque militar que atingiu um hospital da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Kunduz, o comandante americano das forças internacionais no Afeganistão, John Campbell, admitiu nesta terça-feira, 6, que a ação foi um erro e disse que a ordem para o bombardeio partiu do comando americano da coalizão. 

Ao falar à Comissão das Forças Armadas do Senado dos EUA, o general tentou explicar o ataque de sábado, que resultou na morte de 22 pessoas – 12 integrantes da ONG e 10 pacientes. “Para ser claro, a decisão de realizar um ataque aéreo foi uma decisão americana, tomada pela cadeia de comando americana”, reconheceu o militar durante a audiência. 

“Um hospital foi atacado por engano. Nunca marcaríamos como alvo de maneira intencional uma instalação médica protegida”, disse Campbell, que não revelou mais detalhes para deixar que a investigação aberta por Washington siga seu curso. 

Autoridades da MSF voltaram ontem a reiterar a necessidade de uma investigação independente sobre o incidente, que qualificaram de um “crime de guerra”. O hospital foi bombardeado durante batalhas entre forças da coalizão e o Taleban.

Campbell voltou a afirmar que suas tropas providenciavam apoio aéreo para tropas afegãs que estavam em conflito com militantes do grupo extremista em Kunduz, como já havia declarado na segunda-feira.

O general afirmou ter direcionado as forças sob seu comando para iniciar uma revisão de “operações e regras para evitar incidentes como o de Kunduz no futuro”. A audiência foi marcada também por protestos de ativistas contra guerra do grupo Code Pink, que assistiram à sessão em seus tradicionais trajes rosas e com as mãos e faces cobertas de tinta vermelha. 

Em entrevista à emissora americana CNN, o diretor executivo da MSF, Jason Cone, disse que, a não ser que se apresentem provas, tudo indica que o ataque contra o hospital de Kunduz foi “deliberado”, já que a organização havia fornecido diversas vezes as coordenadas do centro de saúde às autoridades de Cabul e Washington.

Questionado sobre se o presidente americano, Barack Obama, se desculpará pelo ataque, o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, disse ontem que os EUA levam o assunto “muito a sério”, mas falta saber “mais” sobre “como ocorreu exatamente (o bombardeio)”. O secretário de Defesa, Ashton Carter, afirmou “lamentar profundamente” as mortes no hospital. 

Em relação às reportagens da imprensa americana que afirmam que Obama estuda manter tropas no Afeganistão depois de 2016 e atrasar a retirada completa, Earnest afirmou que não há decisão tomada e o governo analisa “vários fatores”. Segundo o porta-voz, a decisão de Obama sobre o tema será determinada pelas “condições em terra” no Afeganistão.

Campbell também foi questionado sobre esses planos no painel no Senado. Ele se manifestou a favor de um fortalecimento do dispositivo militar americano depois de 2016 que, por enquanto, prevê menos de mil agentes em Cabul.

“Com base nas condições do território, acredito que temos de fornecer a nossos líderes opções diferentes ao plano atual”, afirmou o general aos senadores. Segundo ele, o plano contempla uma redução do número atual de 9,8 mil soldados a partir de maio de 2016, com a manutenção de uma força residual em 2017. 

No entanto, de acordo com esse cronograma, o general disse que os EUA teriam “capacidades muito limitadas” para a formação e apoio das tropas afegãs a partir de 2016. Por outro lado, Cabul continuará a precisar de apoio em áreas cruciais como logística, inteligência e poderio aéreo, afirmou Campbell, se recusando a detalhar as opções apresentadas para a Casa Branca. 

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