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'EUA continuam espionando milhões de emails', diz Snowden

Ex-funcionário da CIA diz que governo americano não deu garantias legais para seu retorno e pede asilo político à Suíça

JAMIL CHADE - CORRESPONDENTE/ GENEBRA, O Estado de S. Paulo

06 Março 2015 | 09h21

GENEBRA - O ex-técnico da agência de inteligência Edward Snowden alerta que, apesar de todas as promessas do governo do presidente americano, Barack Obama, os serviços de espionagem e monitoramento "continuam exatamente como eram antes". "Eles não foram revistos de forma substanciais", alertou. Em uma conversa por teleconferência da qual o Estado participou na quinta-feira, 5, o americano deixou claro que nada mudou nas práticas do governo americano. 

Em 2013, Snowden revelou como Washington estaria realizando uma vasta operação de monitoramento de dados de cidadãos e líderes estrangeiro. Seus documentos criaram verdadeiras crises diplomáticas entre países, inclusive entre a presidente Dilma Rousseff e Barack Obama. Em um esforço de abafar a polêmica, a Casa Branca anunciou medidas para modificar a forma pela qual coleta inteligência e passou a dar indicações a governos estrangeiros que os demais líderes não seriam mais grampeados. 

Na ONU, o governo do Brasil e da Alemanha apresentam na semana que vem uma proposta de resolução para que se crie um posto para examinar se o direito à privacidade está sendo respeitado. Para Snowden, porém, Washington não abandonou suas práticas.

"Obama tem o poder de acabar com os programas que monitoram todos os americanos. Para o benefício de todos, isso mandaria uma mensagem moral de que 'tentamos isso e reconhecemos o erro'", declarou. Em sua avaliação, os programas de monitoramento não garantiram um mundo mais seguro. "Esse sistema nunca impediu um atentado", reforçou.

"Trabalhar na inteligência não é ser James Bond, é proteger sociedades. Mas não ser criminosos. É encontrar a verdade para que as políticas estejam adequadas. Mas a maior tragédia é que, depois de 11 de setembro de 2001, começamos uma guerra que era mentirosa", insistiu Snowden, que vive temporariamente exilado em Moscou.

Asilo. Snowden também revela que quer deixar a Rússia e, num apelo pouco comum, solicitou que o governo da Suíça o conceda asilo político."Tenho trabalhado muito com meus advogados para ter garantias de ter um processo justo", disse. "Mas o Departamento de Justiça americano não aceita qualquer tipo de acordo. Só dizem que não vão me executar. Mas isso não é suficiente. Não quero testemunhas secretas, documentos secretos e, por enquanto, o governo não está de acordo em aceitar isso", declarou. 

A escolha da Suíça, explicou, deve-se ao fato de o próprio Snowden ter trabalhado no país como membro da CIA. "A Suíça seria uma ótima solução política e, apesar do que os americanos dizem, seria algo aceitável para o governo dos EUA", declarou. 

Apesar de pedir o asilo aos suíços, no entanto, ele não deixou de criticar o país. "Em termos de inteligência, a Suíça não é neutra", garantiu, apontando Genebra como "a capital da espionagem". 

O americano admitiu que, ao deixar Hong Kong depois de fazer as revelações aos jornalistas do jornal britânico The Guardian, seu destino era o Equador. "Mas meu passaporte foi cancelado e eu fiquei preso na Rússia. Eu nunca escolhi a Rússia", disse. "Enquanto eu estava no aeroporto de Moscou, pedi asilo a 21 países europeus e ninguém me concedeu. Talvez eu nunca seja autorizado a sair daqui".

Questionado se ele gostaria de voltar aos EUA, Snowden não hesitou. "Com certeza", disse. "Não sou um antiamericano e nem quero derrubar o governo", garantiu. "Patriotismo não é amor pelo governo. É amor pelo país". 

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