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Internacional

Visão Global

EUA continuam vulneráveis a atentados

Aceitar vulnerabilidades significa avaliar a segurança a partir da minimização dos riscos e maximização das defesas

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JULIETTE KAYYEM,
O Estado de S. Paulo

28 Março 2016 | 05h00

Depois dos ataques terroristas de Bruxelas e do breve intervalo para pensar nos mortos e feridos, outros pensamentos rapidamente vêm à tona. Nos quase 15 anos desde o 11 de Setembro, as dúvidas que tenho ouvido de parentes e amigos variaram, mas nunca pararam: devo comprar uma arma? Times Square é segura na passagem de ano? Essas perguntas sobre um mundo em caos se fundem em apenas uma: minha família está segura? A resposta é simples e libertadora: não, não inteiramente.

Os Estados Unidos são vulneráveis, graças a Deus. O fluxo de gente e coisas, o movimento para as cidades e dentro delas, a congregação de massas que dá sentido a nossas vidas, na igreja ou no Parque Fenway, estão sob risco. Nosso sistema (um governo federal com poderes limitados, prefeitos cuidando de departamentos de polícia, governadores dirigindo seções da Guarda Nacional) não foi pensado para criar um escudo intransponível contra qualquer ameaça que se conceba. 

Mais de 2 milhões de pessoas embarcam por dia em aeroportos americanos. O movimento de bens e serviços – a expectativa de que tudo, de passagens aéreas a alimentos, possa ser comprado com alguns toques de mouse – é nossa linha de vida. Trocamos um pouco de segurança por conveniência.

Nos anos seguintes ao 11 de Setembro, o establishment da segurança passou a visão de uns EUA que nunca existiram, que têm como base a noção de que o país era invulnerável e imune a riscos antes dos atentados terroristas. O choque de um ataque tão maciço contra civis em plena pátria fez com que muita gente entrasse em amnésia coletiva, como se a nação nunca tivesse passado por perigos, incluindo alguns mais graves que a Al-Qaeda. 

O presidente George W. Bush vendeu essa ideia ao Congresso e ao povo americano ao dizer, em discurso poucos dias após o 11 de Setembro, que os ataques eram algo “nunca antes visto”, mas uma resposta nacional poderia impedir de acontecer de novo. 

E, se contra-atacássemos ainda mais duramente e comprássemos mais armamento, os EUA conseguiriam reduzir sua vulnerabilidade a zero. Nem tanto. As ameaças mudam constantemente, mas o discurso político sugere que nossas vulnerabilidades decorrem apenas de falta de recursos, empenho ou competência. Às vezes, isso é verdade. Mas, na maioria dos casos, somos vulneráveis porque optamos por ser, porque aceitamos que um pouco de risco é suportável. 

Um país que conseguisse interceptar todo homem-bomba não seria um país livre – ou divertido. Simplesmente, nunca chegaremos ao grau máximo de defesa. Os americanos não tolerariam atrasos ou intrusões em suas vidas decorrentes de um sistema de transporte de massa que, em nome da segurança, exigisse checagem de bolsas e mochilas ou revistas físicas. 

Depois das bombas na Maratona de Boston, em 2013, muitos se perguntaram como deixar a competição mais segura. Uma presença policial maior ajuda, mas o único modo de se ter uma maratona realmente segura é não fazer uma. Assim, os riscos que aceitamos não são necessariamente um mau negócio só porque o inimigo pode explorá-los. Não importa que promessas se façam na campanha eleitoral: o terrorismo jamais será derrotado. 

Não existe ideologia, vigilância ou barreira que impeça definitivamente um cara de 24 anos de se tornar radical, conseguir armas e usá-las contra alvos indefesos. Enquanto não admitirmos isso, estaremos sempre entre os extremos de enfiar a cabeça na areia ou perdê-la de uma vez. 

Não significa que devamos pedir água e ficar torcendo pelo melhor. Nossas preocupações são reais. Sim, as mortes por armas de fogo ultrapassam de longe qualquer tipo de violência associada ao terrorismo em nosso país e nosso risco de morrer em um ataque terrorista é de 1 em 20 milhões, o que permite ao presidente Barack Obama dizer que o Estado Islâmico não é uma ameaça existencial. 

Vivemos em um mundo com violência armada, motoristas bêbados e doenças. Imploramos ao governo para destinar o máximo possível de recursos para minimizar esses riscos. Isso é o máximo que podemos para fazer para enfrentar a violência terrorista. Aceitar essas vulnerabilidades significa poder avaliar nossa segurança por três premissas básicas: minimizar os riscos, maximizar as defesas e manter o moral elevado.

Minimizar riscos inclui ações de longo prazo, como coleta de informações, destruição de células terroristas no exterior, ação diplomática e abertura de processos criminais. Pode-se discutir o investimento a ser feito em cada um desses itens, mas sem esquecer que o risco continuará existindo enquanto existir o inimigo.

Maximizar as defesas inclui controlar fronteiras e emitir vistos de entrada, investir em equipamento e treinamento para ações de resposta rápida e proteger, na medida do possível, eventuais alvos vulneráveis. Um grupo de policiais vigiando uma ponte cheia de gente pode parecer meio teatral, mas o objetivo é exibir força de modo a tornar mais improvável um ataque terrorista. 

Por último, temos de manter o moral alto. Os que desafiam a xenofobia e a islamofobia são, com frequência, criticados como “politicamente corretos”. Se isso resultar em mais segurança, terá valido a pena. 

No curso da história dos EUA, o único atributo, além da geografia, que nos tem mantido seguros é nossa capacidade de absorver, integrar e assimilar comunidades que chegam ao país e o chamam de pátria. É uma experiência à qual nem sempre temos sido fiéis, mas mesmo assim nos põe à frente de nossos aliados europeus nesse campo. Desviarmos dessa tradição nos levaria a rumos mais perigosos do que estamos seguindo hoje. 

Se esses requisitos para a segurança nos parecem familiares é porque os praticamos diariamente em casa. Trancamos portas, usamos capacete e mantemos um extintor de incêndio na cozinha, sem pararmos de usar o fogão por medo. Riscos existem também no país. Cabe-nos exigir do governo que nos deixe mais seguros, mas também temos de aceitar que vulnerabilidade nem sempre é sinônimo de falha. /TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

JULIETTE KAYYEM É EX-SECRETÁRIA ASSISTENTE DO DEPARTAMENTO DE SEGURANÇA INTERNA DOS ESTADOS UNIDOS

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