REUTERS/Denis Balibouse/File photo
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EUA pretendem deixar tratados, afirma ONU

Governo Trump pretende reduzir as contribuições financeiras à organização 

Jamil Chade, Correspondente / Genebra , O Estado de S. Paulo

26 Janeiro 2017 | 05h00

Diplomatas da ONU ficaram em alerta ao saberem dos planos do governo de Donald Trump para reduzir as contribuições financeiras à organização, condicionar sua participação em instituições ou até mesmo abandonar tratados. A Casa Branca já informou a diplomatas estrangeiros que está examinando formas de abandonar tratados vistos como “ultrapassados” ou que não estariam dentro da linha da política externa de Trump.

O Estado apurou que grupos dentro da ONU foram informados de que a Casa Branca vai rever a participação em todos os tratados internacionais e considerar quais daqueles existe um interesse na permanência do governo americano. 

O temor em Genebra é que isso signifique um abandono do Acordo Climático de Paris, algo que Trump já insinuou que poderia rever. Na semana passada, o presidente da China, Xi Jinping, fez um apelo ao governo americano para que não “tire do trilho” o esforço global para proteger o meio ambiente. 

Mas é no setor de direitos humanos que a participação americana pode ser reduzida no curto prazo. A Convenção da ONU para o Direito das Crianças pode ser abandonada, segundo as primeiras informações recebidas pelo Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos. O governo Trump também estaria avaliando uma retirada dos EUA da Convenção para a Eliminação da Discriminação contras as Mulheres.

“Tememos pelo impacto de uma saída de cena dos EUA em temas de direitos humanos”, confirmou Ken Roth, o diretor-executivo da Human Rights Watch, apontando que o espaço deixado poderia ser preenchido por governos autoritários. 

Dinheiro. Mas é na parte financeira que a preocupação é mais imediata. Os EUA contribuem com 25% do orçamento da ONU. Mas, em algumas operações de paz e entidades, o peso da doação americana chega a 50%. As informações recebidas na sede da ONU em Genebra era de que, em alguns casos, o corte de recursos pode chegar a 40%. 

Dados confidenciais obtidos pelo Estado revelam que, até outubro de 2016, a dívida dos EUA com a ONU chegava a US$ 3,5 bilhões, a maior entre todos os membros. Ainda assim, trata-se do maior contribuinte, que garante, na prática, a sobrevivência de vários departamentos. 

No gabinete de Antonio Guterres, o novo secretário-geral da ONU, a iniciativa já era esperada. O Estado apurou que o português pretende iniciar uma reforma administrativa da ONU justamente para convencer Trump a não suspender o financiamento. 

Mas, para a Casa Branca, a questão vai além de uma crítica à burocracia das Nações Unidas. O plano é de que o dinheiro seja suspenso para qualquer departamento, iniciativa ou projeto que apoie aborto em políticas de saúde pública. Programas da ONU que tenham como função compensar o impacto de sanções contra o Irã e outros países também deixarão de receber recursos dos EUA.

Mas é especialmente a questão palestina que promete causar uma crise diplomática. Segundo as orientações da nova diplomacia americana, todos os tratados ou organismos da ONU que reconheçam o Estado Palestino deixarão de contar com o apoio financeiro dos EUA. O governo de Barack Obama já havia tomado iniciativas similares quando a Unesco aceitou a adesão do Estado Palestino. 

Alguns organismos internacionais já estariam na mira de Trump por conta ainda de sua orientação em políticas sociais. Um deles é o Fundo de População das Nações Unidas, já criticado por Washington durante o governo de George W. Bush por promover medidas de saúde reprodutiva. Na OMS, a notícia também foi recebida com sérios temores. 

 

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