Khalil Ashawi/Reuters
Khalil Ashawi/Reuters

EUA questionam ações militares russas na Síria

Casa Branca afirma que bombardeios ordenados por Moscou podem prejudicar objetivo de coalizão liderada pelo Pentágono contra o EI

Cláudia Trevisan , CORRESPONDENTE / WASHINGTON

01 Outubro 2015 | 20h10

WASHINGTON - As ações militares da Rússia na Síria contrariam os interesses dos EUA e seus aliados, que têm o principal objetivo de derrotar o Estado Islâmico (EI), afirmou ontem o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest. Entre os alvos dos ataques há pelo menos um grupo da oposição moderada a Bashar Assad que foi treinado pela CIA, segundo o republicano John McCain, presidente do Comitê das Forças Armadas do Senado.

“Há uma falta de clareza sobre as reais intenções da Rússia dentro da Síria”, ressaltou Earnest. Nos últimos dois dias, aviões russos fizeram ataques “indiscriminados” contra grupos de oposição a Assad, incluindo alguns apoiados pelos Estados Unidos, afirmou o porta-voz da Casa Branca. 

“As atividades militares da Rússia contra grupos de oposição que estão genuinamente lutando contra o ISIL entram em conflito com nossa estratégia de combate ao grupo e deixamos isso muito claro aos russos”, acrescentou Earnest, usando a sigla pela qual o governo dos EUA se refere ao EI. 

Em sua avaliação, o bombardeio de áreas dominadas pela oposição moderada a Assad é um “grave erro de cálculo” que poderá radicalizar ainda mais o conflito. O presidente russo, Vladimir Putin, criticou na segunda-feira a estratégia dos EUA de equipar e treinar a oposição e disse que esses grupos desertarão para o EI assim que estejam armados.

Na tentativa de evitar encontros acidentais na ação das duas maiores potências militares do mundo, EUA e Rússia realizaram ontem uma videoconferência com o objetivo de estabelecer critérios para suas operações. Earnest disse que essa foi a primeira de uma série de discussões que devem se repetir nas próximas semanas. 

Segundo ele, foram analisadas questões técnicas, como a ênfase na utilização, pelos pilotos, de canais de comunicação reconhecidos internacionalmente. Apesar de a escolha de alvos não ter sido parte da conversa de ontem, Earnest não descartou a possibilidade de que isso venha a ocorrer no futuro.

Aviões militares despachados por Moscou realizaram ontem bombardeios aéreos na Síria pelo segundo dia consecutivo. A agência de notícias Step, de oposição a Assad, disse que pelo menos um dos ataques atingiu área controlada pelo EI. 

Em entrevista na ONU, em Nova York, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, afirmou que o objetivo de seu país é enfrentar o EI e a Frente Al-Nusra, além de “outros grupos terroristas”. As duas organizações também estão na mira da coalizão liderada pelos Estados Unidos para combater extremistas na Síria. 

“Nós estamos totalmente de acordo com a coalizão nesse ponto”, disse Lavrov. “Nós temos a mesma abordagem.” Mas os EUA e a Rússia continuam a discordar em um ponto fundamental: o papel de Assad na luta contra o terrorismo e no futuro da Síria. Enquanto os americanos exigem sua saída, Moscou insiste na inclusão de seu aliado na luta contra o EI e em eventuais negociações políticas com a oposição. 

Críticas. Anteontem, o secretário de Defesa dos EUA, Ashton Carter, afirmou que a ação russa na Síria equivale a “jogar gasolina no fogo”. Para ele, os ataques sem coordenação com a coalizão americana vão agravar e prolongar a guerra civil na Síria, que já custou a vida de 250 mil pessoas e forçou 12 milhões a abandonar suas casas nos últimos quatro anos e meio. “Não escutem o Pentágono”, disse Lavrov antes de se encontrar com o secretário de Estado, John Kerry, em Nova York.

Alerta. O porta-voz da Casa Branca observou ainda que os ataques aéreos da Rússia poderão levar a oposição moderada a se unir a grupos mais extremistas que enfrentam Assad, agravando o conflito. Também terão o potencial de alimentar a radicalização dentro da própria Rússia, onde 14% da população é muçulmana de maioria sunita, a mesma orientação dos grupos moderados que se opõem a Assad.

A Rússia enviou 50 aviões à Síria, em sua maior operação militar fora dos limites da antiga União Soviética desde a invasão do Afeganistão, em 1989. 

Os Estados Unidos foram informados dos ataques da quarta-feira com apenas uma hora de antecedência. 

A comunicação foi feita à Embaixada dos Estados Unidos no Iraque por meio de um pedido para que as forças americanas abandonassem o espaço aéreo da Síria - algo que não foi atendido.

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