EUA são necessários na linha de frente

Mesmo treinando os combatentes xiitas para lutar contra o EI no Iraque, sua experiência em guerra urbana é essencial

GARY, ANDERSON, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

26 Março 2015 | 02h01

Este mês, o governo iraquiano lançou uma ofensiva contra combatentes do Estado Islâmico (EI) na cidade natal de Saddam Hussein, Tikrit. Cerca de 30 mil soldados, dois terços dos quais membros de milícias xiitas conduzidas por consultores iranianos, atacaram uma força jihadista estimada em algumas centenas pelos EUA.

Os EUA e seu tão alardeado poder aéreo não foram convidados para a festa. Desde o começo, muitos observadores supunham que o sucesso da operação era garantido, com a cobertura da mídia concentrada em como os combatentes xiitas vitoriosos tratariam a população sunita da cidade.

Mas uma coisa curiosa aconteceu no caminho desse passeio liderado por iranianos. Tikrit ainda não caiu. Ataúdes carregando os corpos de membros de milícias xiitas estão sendo enviados de volta em quantidades inesperadas e os soldados regulares iraquianos estão relutantes em lutar em terreno urbano contra a dura infantaria leve do EI. Isso não surpreendeu ninguém que trabalhou e combateu com os iraquianos no passado.

A guerra urbana não é para amadores. Mesmo soldados experientes podem sucumbir em labirintos urbanos, como os EUA aprenderam na Cidade de Hué, no Vietnã, e Mogadíscio, na Somália. As hordas xiitas que tentam retomar Tikrit estão recebendo a lição de combate urbano que os fuzileiros navais americanos aprenderam em treinamentos experimentais urbanos que desenvolveram de 1994 a 2000. Esse projeto permitiu que os americanos chegassem a suas competências da maneira relativamente fácil - por meio do uso da marcação de alvos com laser e munições simuladas - antes eles tiveram de fazê-lo em condições reais em cidades como Falluja e Ramadi.

Infelizmente para os iraquianos, alguns combatentes do EI que estão defendendo Tikrit são também veteranos desses primeiros embates urbanos iraquianos.

Depois da desastrosa batalha de 1993 em Mogadíscio, o major da reserva dos fuzileiros navais Mike Myatt argumentou que a transformação da demografia mundial e outros fatores ditavam que as batalhas urbanas se tornariam cada vez mais a regra, e não a exceção. Isso levou os fuzileiros a realizar uma série de experimentos com guerra urbana. Todo o esforço compensaria imensamente nas batalhas de 2004 contra a Al-Qaeda no Iraque, a antecessora do EI, em Falluja e Ramadi.

No caminho, descobrimos que unidades bem treinadas com veículos blindados, atiradores de elite e apoio aéreo de precisão poderiam suprimir cirurgicamente defensores urbanos sem destruir a cidade inteira no processo. Nossos engajamentos iniciais em treinamento resultaram em baixas simuladas de fuzileiros de até 70%; a taxa de baixas real foi de menos de 10%.

Em Tikrit, ao contrário, as massas lideradas por xiitas que passam por forças de segurança iraquianas estão metidas a fundo no processo de destruir a cidade para salvá-la, pois empregam uma estratégia de fazer amplas barragens de artilharia e ataques aéreos seguidos de ataques frontais. Os defensores experientes que eles estão tentando desalojar postam atiradores de elite nas ruínas e forram o campo de batalha com explosivos improvisados.

Qualquer um que tenha visto combates urbanos tanto simulados como reais sabe que somente soldados experientes e bem treinados serão capazes de expulsar o EI das cidades iraquianas e sírias que ele infestou. Essa é uma dura verdade: tropas iraquianas treinadas pelos EUA e rebeldes sírios só conseguirão manter essas cidades depois que elas forem limpas, mas somente americanos serão capazes de derrotar o EI num combate urbano de perto. / CELSO PACIORNIK

É CORONEL NA RESERVA DO MARINE CORPS E EX-CHEFE DE ESTADO-MAIOR DO MARINE CORPS WARFIGHTING LAB

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