Europa emitiu 5 mil ordens de expulsão a brasileiros em 2016

Taxa de expulsões aumentou em 25% em apenas um ano; brasileiros estão na 12ª posição entre as nacionalidades que mais são expulsas da Europa

Jamil Chade, correspondente na Suíça, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2017 | 07h18

GENEBRA – Mais de 5 mil brasileiros foram ordenados a deixar a Europa em 2016 por estarem vivendo de forma irregular nos diversos países do bloco. Os dados são da Agência de Fronteiras da UE (Frontex), que revela que o número de brasileiros nessa situação já supera o contingente de expulsões de cidadão da Tunísia ou Somália.

Os números também revelam um aumento importante em comparação aos últimos três anos. Em 2013, foram 3,7 mil ordens de expulsão envolvendo brasileiros. Em 2015, esse número subiu para 4,1 mil. 

Do total de 5023 ordens emitidas de expulsão em 2016, 2,7 mil brasileiros foram de fato embarcados em aviões de volta ao País, enquanto os demais ainda aguardam recursos ou tentam fugir das forças de ordem. 

De acordo com os números da Frontex, as “fronteiras do continente continuam sendo pressionadas”. Uma das respostas tem sido um número cada vez maior de ordens de expulsão daqueles que, internamente, são descobertos vivendo de forma irregular. Em 2015, foram emitidas 286 mil ordens de expulsão pelos 28 países do bloco. Em 2016, esse número subiu para 305 mil. 

A liderança entre as nacionalidades mais expulsas é a de afegãos, com 34 mil casos no ano passado, e seguida por 28 mil iraquianos. Os brasileiros aparecem na 12ª posição, superando os russos e sendo o único país latino-americano entre os principais alvos de expulsões. 

Os números não incluem ainda aqueles que, antes mesmo de entrar no continente europeu, são barrados nos aeroportos da UE. De acordo com a Frontex, entre setembro de 2015 e setembro de 2016, 3,2 mil brasileiros tiveram sua entrada rejeitada em aeroportos como Madri, Barcelona ou Lisboa. 

Para entidades de brasileiros pela Europa, a nova onda de expulsões ocorre por conta do novo fluxo de pessoas que, diante da recessão no País, voltaram a tentar a sorte no Velho Continente. 

De acordo com Edineia da Silva, presidente do Núcleo de Entidades Brasil-Espanha, muitos brasileiros que estavam em Madri ou Barcelona até 2009 resolveram voltar ao Brasil. “O nosso país estava crescendo e aqui havia uma crise”, disse. “Mas a situação se inverteu e agora esses brasileiros voltaram a tentar a sorte por aqui”, contou. 

O problema, segundo ela, é que a Espanha e a Europa de hoje não tem mais as mesmas regras de uma década atrás. “Empregadores, hoje, temem serem punidos por contratar imigrantes irregulares, até mesmo como empregadas domésticas. As regras estão mais duras e é mais difícil encontrar trabalho, o que leva a pessoa a rapidamente viver uma situação de irregularidade”, explicou. “Há dez ou quinze anos, essa preocupação não existia”, disse. 

Os números oficiais confirmam o movimento identificado pelas associações. Em 2011, 6 mil brasileiros tinham retornado da Europa ao Pais. Mas metade deles foi por programas de retorno voluntários, pelos quais os governos europeus pagavam por aqueles que demonstrassem interesse em voltar ao Brasil, antes mesmo de estar na irregularidade. Em 2012, por esses mesmos programas e expulsões, o número já tinha caído para 4,9 mil. 

A crise europeia também viu a Frontex registrar um número cada vez menor de brasileiros vivendo de forma irregular pela Europa. Em 2008, eram 29 mil. Mas esse total cairia para 17 mil em 2009, 15,5 mil em 2010 e apenas 11,1 mil em 2011. A entidade não revela ainda os números para 2016, mas indica claramente que o número de ordens de expulsão em alta revela que o total de irregulares também voltou a crescer.

“Essas pessoas voltaram esperando encontrar a mesma situação de 2004, 2005. Isso não existe mais”, insistiu Edineia que, por quase 30 anos, lida com questões de imigrações. “Psicologicamente é muito difícil” diz. Segundo ela, cenas como a de controle de imigrantes em linhas de metrôs pela Espanha “não existiam há quinze anos”. “A preocupação é grande e constantes. O número de pessoas sendo pegas nos aeroportos ou nas cidades tinha diminuído. Mas agora voltou a crescer”, completou.

O Estado apurou com um dos consulados brasileiros em Portugal que uma das táticas usadas pelos imigrantes irregulares ao serem detidos é o de esconder o fato de estarem com suas famílias na Europa. 

O esforço, portanto, é o de evitar a deportação do restante da família. “O problema é que muitas mães e crianças ficam órfãos e são obrigadas a cuidar sozinhas de todos”, indicou a funcionária, pedindo anonimato. 

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