EFE/JUSTIN LANE
EFE/JUSTIN LANE

'Europa vai ter de decidir se abaixa a cabeça para Trump'

Professor da FGV afirma que posição dos países europeus será fundamental para o futuro do Irã

Entrevista com

Salem Nasser, professor da Fundação Getúlio Vargas

Alex Tajra, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2018 | 22h19

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, retirou nesta terça-feira, 8, os EUA do acordo nuclear firmado com o Irã em 2015. Aliados tradicionais dos americanos, Alemanha, França e Reino Unido foram contra a decisão. Israel e Arábia Saudita, elogiaram. Em entrevista ao Estado, o professor da Fundação Getúlio Vargas e estudioso do Oriente Médio, Salem Nasser, afirmou que o posicionamento dos países europeus signatários do acordo será imprescindível para o futuro do Irã. Nasser descartou, entretanto, a possiblidade de um conflito entre iranianos e americanos no Oriente Médio.

Como o sr. analisa a retirada dos EUA do acordo nuclear com o Irã?

Essa decisão era esperada. Mas, ao mesmo tempo, Trump nos acostumou a trazer alguma surpresa que decorre de sua inconsistência. No começo do dia, não havia sinal do que realmente aconteceria, se seria algo parcial, se ele sairia do acordo mas não restabeleceria as sanções, se daria mais de tempo para os europeus. Havia uma probabildiade de ele sair, mas não podíamos cravar isso. Quando finalmente anunciou a saída, fez isso nos termos mais fortes, da maneira mais extrema. Tecnicamente, não há uma saída do acordo. Uma resolução da ONU aprovou o acordo. Ele continua valendo e a resolução também. O que ele fez foi não renovar a suspensão das sanções. E ele ainda anunciou que estabelecerá sanções muito mais fortes. Ele foi ao extremo do que se poderia esperar. Em termos de provocação, de risco de alguma exacerbação do jogo regional, Trump foi ao máximo.

Quais as consequências iniciais dessa decisão?

Foi um depoimento muito grosso, ele prometeu sofrimento aos iranianos, disse que os colocaria de joelhos. A eficácia das sanções vai depender do que os outros países vão fazer, e aqui quem está numa situação mais constragedora nos próximos dias são os europeus. Até mais do que os iranianos, por que os europeus agora precisam decidir se abaixam a cabeça para Trump e fazem tudo do jeito que ele quer, ou se tomam alguma medidade intependente com relação aos EUA. Essa decisão não é fácil, já que as sanções significam que, se eles mantiverem negócios correntes com o Irã, as empresas europeias podem sofrer alguma sanção. Essa é a consequência mais banal. Uma consequência mais profunda é de que esteja em risco, de algum modo, a aliança histórica entre americanos e europeus, que Trump tenha empurrado sua aliança com a Europa até o limite. Ou os europeus serão submissos ou vão serão obrigados a partir para outros caminhos.

Por que europeus e americanos divergem sobre o Irã mas concordam sobre Sìria?

No caso da Síria, os europeus demonstraram uma submissão às políticas da Otan. Na questão dos ataques com armas químicas, França e Inglaterra se alinharam aos EUA. A questão iraniana traz algumas diferenças por que, de fato, os europeus enxergam que esse acordo era o melhor que se poderia ter com os iranianos. Eles têm medo de não haver mais acordo e começar uma fase de incerteza no Oriente Médio. Há pelo menos dez anos eles estão procurando firmar esse acordo e o que faltava era a sinalização dos americanos de que eles entrariam com o compromisso de não intervir no regime do Irã. Para a Europa, a ausência do acordo representa o pior dos mundos em termos de proliferação de armas nucleares, de uma corrida armamentista no Oriente Médio. Os países vão perder a possiblidade de controle sobre o programa nuclear do Irã e eles têm a certeza de que o irã está cumprindo o acordo à risca. Trump está agindo como um valentão, acostumado a fazer negócios torcendo o braço do seu parceiro comercial. Os principais atores deste acordo acham que isso não vai funcionar, os iranianos podem sair do pacto e retomar seu projeto nuclear, não para fins militares necessariamente, mas retomando com muito mais força. Essa medida abriu um potencial de caos para todos os lados. A situação que já não era fácil com o acordo, fica pior sem ele. Há também interesses dos europeus em manter acordos comerciais com o Irã. Assim que foi firmado, os europeus correram para fazer negócios com os iranianos, já que há um grande potencial de lucro no país.

Qual o interesse de Arábia Saudita em apoiar essa decisão?

A saída do pacto nuclear pode fazer parte de um grande pacote de medidas elaborado junto aos sauditas, pensando também que Trump faz um jogo de extorsão com esse país. Há duas semanas, o presidente americano disse que determinados países árabes não sobreviveriam uma semana sem a proteção dos EUA. Na campanha eleitoral, Trump chamou a Arábia Saudita de uma espécie de "vaca leiteira" que os americanos deveriam aproveitar ao máximo e, quando visitou o país, fechou mais de US$ 400 bilhões em negócios. É possível que os sauditas estejam pagando o preço pela proteção do trono e pela segurança de que o príncipe herdeiro seja o próximo rei. A Arábia Saudita enxerga a normalização das relações de países com o Irã como um fortalecimento iraniano na região, e o Irã está, de fato, se fortalecendo de várias formas diferentes. O acordo permitiu que o processo de "demonização" do Irã recuasse. Os países começaram a enxergá-lo como mais um ator comercial, parceiro que cumpre seus acordos. Isso assusta muito os sauditas, que enxergam o Irã como seu grande rival na região.

E o papel de Israel e das políticas do premiê Binyamin Netanyahu?

A grande questão é se Netanyahu só está apoiando as políticas de Trump ou se é uma forçada de mão. Hoje, discutiu-se muito se não foi o primeiro-ministro israelense que empurrou Trump para essa decisão. Israel é um dos atores que, desde a assinatura do acordo, está incomodadíssimo. O sonho israelense, desde o começo dos anos 2000, era de que os EUA partissem para o uso da força contra o Irã. Não por conta do programa nuclear, mas por que enxerga o Irã como a grande ameaça imediata aos projetos israelenses e até mesmo à sobrevivência de Israel. Outra questão que assusta Israel é o programa de mísseis balísticos desenvolvido pelo Irã, que não é contemplado pelo acordo. A guerra civil na Síria alimentou as esperanças de que os grupos terroristas, contrários ao governo de Bashar Assad, derrubariam o governo e, consequentemente, enfraqueceriam o Irã. Isso não deu resultados, já que a guerra foi praticamente vendida pelo governo e com a ajuda do Irã. E isso assusta muito israelenses e americanos. A única saída para enfraquecer o Irã seria os EUA atacarem o acordo nuclear, e foi isso que eles fizeram.

Há possibilidades de reflexos dessa decisão na guerra síria?

Preciamos ver o destino do acordo. Se ele se erodir, o risco de que alguma coisa aconteça na Síria é maior. Podem acontecer ataques mais intensos às posições iranianas na Síria. Nos últimos dias, vimos alguns ataques de Israel à Síria, e uma resposta é esperada. Os iranianos não estavam respondendo por conta de dois motivos. O primeiro é o resultado das eleições parlamentares no Líbano, para saber a extensão da vitória do Hezbollah, que acabou se confirmando. O segundo é a decisão de Trump sobre o acordo. Eles não queriam sacudir muito o barco antes de saber o que iria acontecer no Líbano e nos EUA. Mas não se sabe se a resposta será imediata ou se o Irã vai manter a postura pragmática que vem adotando. A qualquer momento, podemos ver uma intensificação na Síria, iniciada ou pelos israelenses ou pelos iranianos.

Trump vai se reunir com o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, para discutir seu programa nuclear. Existe um paradoxo nesta decisão?

Se fosse o Kim Jong-un, iria para essa reunião com uma imensa desconfiança. Se os EUA fecham um acordo com o Irã e depois dizem que ele não vale nada, o que pode valer o acordo com a Coréia do Norte? Mas, ainda assim, as posições de partida são muito diferentes. Há sim um paradoxo no sentido de que os americanos demoraram 13 anos só para negociar com os iranianos, e a decisão de Trump de negociar com os norte-coreanos foi muito mais rápida. Um elemento que determina essa diferença é que os norte-coreanos têm a bomba nuclear, fizeram vários testes nucleares, mostraram o que tinham. O mesmo aconteceu com o Paquistão e com a Índia. Os americanos só negociaram quando os países demonstraram que tinham a bomba. Então, de certa forma, há uma lição tanto para os norte-coreanos quanto para os iranianos. Se você correr e tiver a bomba nuclear, talvez seja mais respeitado.

O Irã vem enfrentando algumas dificuldades econômicas, incluindo uma queda considerável do PIB. Quais os impactos da decisão de Trump na economia iraniana?

Não dá pra negar que existe uma crise econômica no Irã, que em grande parte essa crise está relacionada à restrição do acesso ao dólar. Isso, contudo, já vinha acontecendo antes do anúncio de Trump. O que coloca em maior risco a economia iraniana é se os europeus resolverem sair de todas as relações econômicas com o Irã para atender às demandas americanas. Por outro lado, o Irã atualmente tem uma maior segurança por contar com o apoio da Rússia e da China, além de uma penetração consistente na economia regional. Ou seja, o Irã não é um país totalmente isolado. Ele tem possiblidades e produtos que sempre vão encontrar saída: petróleo e gás.

Um conflito entre Irã e Estados Unidos é possível?

Neste momento, acho muito difícil. O que é mais provável é um conflito entre Irã e Israel, que muito provavelmente aconteceria na Síria. Não seria uma guerra aberta. Os iranianos são bastante pragmáticos e não provocariam os EUA para uma guerra. Eles vão evitar isso a todo custo. E, na Síria, onde poderia haver maior potencial de conflito direto entre EUA e Irã, não há motivos para um ataque. Os Estados Unidos, se quiserem atacar o Irã, terão duas opções. Ou farão um ataque cosmético, para destruir uma instalação militar ou alguma estrutura na Síria, ou atacariam diretamente o Irã. A primeira opção deporia contra os próprios americanos e fortaleceria um tom de vítima que seria adotado pelo Irã. A segunda já se mostrou completamente nula. Já não deram conta do Iraque, do Afeganistão e essas guerras acabaram enfraquecendo a hegemonia americana.

 

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