Chip Somodevilla/Getty Images/AFP
Chip Somodevilla/Getty Images/AFP

Ex-assessor de Trump admite mentira sobre ligação com russos e faz delação

Michael Flynn diz que foi orientado pela equipe de transição a discutir com embaixador da Rússia as sanções impostas por Obama; general da reserva aceitou cooperar após ser acusado de mentir para o FBI

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2017 | 13h14
Atualizado 01 Dezembro 2017 | 20h48

Michael Flynn, ex-conselheiro de segurança nacional de Donald Trump, afirmou nesta sexta-feira que foi orientado pelo comando da equipe de transição do então presidente eleito a discutir com o embaixador russo nos EUA as sanções impostas ao país pelo ex-presidente Barack Obama em resposta à interferência de Moscou nas eleições de 2016. Ele admitiu ter mentido ao FBI. 

Ex-assessor de Trump negociou com turcos para entregar opositor de Erdogan

As declarações constam de acordo de delação premiada fechado por ele com Robert Mueller, o procurador especial responsável pelas investigações sobre a ação da Rússia na disputa, no mais importante desdobramento do caso. O teor de sua confissão é o que mais se aproxima do estabelecimento de vínculo entre as atividades suspeitas e o próprio Trump ou integrantes de seu círculo próximo.

Flynn afirmou que discutiu as sanções do governo Obama no dia 29 de dezembro em conversa telefônica com um dos chefes da equipe de transição do novo governo, que estava com Trump no resort Mar-a-Lago, na Flórida. No dia anterior, o embaixador da Rússia nos EUA, Serguei Kislyak, havia entrado em contato com ele.

Segundo a CNN, o interlocutor do ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional era o genro de Trump, Jared Kushner, casado com Ivanka Trump. No acordo de delação premiada, Flynn disse ter sido orientado a dizer a Kislyak que a equipe de transição gostaria que a Rússia evitasse responder às sanções. A avaliação era a de que o agravamento da tensão com os EUA afetaria os objetivos de política externa de Trump. A confissão não faz menção a esse fato, mas uma das aspirações do presidente era se aproximar de Moscou.

The Economist: Quando a verdade é questão política

Assim que recebeu a orientação, Flynn a transmitiu a Kislyak. Em 30 de dezembro, Putin disse que não adotaria retaliações aos EUA em razão das sanções. Um dia depois, o diplomata russo telefonou a Flynn para comunicar a decisão de seu governo. Em seguida, Flynn relatou a conversa à equipe de transição.

“O fechamento de um acordo de delação premiada em um estágio inicial da investigação é um indício de que Flynn já forneceu informações importantes aos procuradores e continuará a cooperar com as investigações”, disse Brandon Garrett, professor de Direito Constitucional e Criminal da Universidade da Virgínia. 

 

O general da reserva decidiu cooperar depois de ter sido acusado de mentir para o FBI sobre o teor de seus contatos com o diplomata russo, crime punido com até 5 anos de prisão e multa de US$ 250 mil. As declarações falsas foram dadas em 24 de janeiro, quando ele já estava na Casa Branca. Na época, ele negou que tivesse discutido as sanções com o embaixador russo.

Flynn é o primeiro ex-integrante do governo Trump a ser acusado por Mueller, que investiga se houve conspiração entre integrantes da campanha republicana e cidadãos russos para prejudicar a candidatura de Hillary, vista por Putin como hostil a seus interesses. Ty Cobb, advogado de Trump, reduziu a importância do anúncio de ontem. “Nada no acordo de delação ou nas acusações implicam qualquer pessoa além do sr. Flynn.” 

Mueller também analisa se o presidente obstruiu a Justiça quando pediu ao ex-diretor do FBI James Comey que abandonasse a investigação sobre o envolvimento de Flynn com os russos. A solicitação foi feita em 14 de fevereiro, um dia após o general ter sido demitido sob o argumento de que mentiu ao vice-presidente, Mike Pence, sobre as conversas com Kislyak.

 

Ex-conselheiro de Segurança de Trump faz ‘vaquinha’ para sua defesa

Na época, o presidente disse em entrevista que havia demitido Comey em razão da investigação sobre a Rússia. O afastamento acabou levando o Departamento de Justiça a indicar Mueller para comandar o caso, o que contrariou Trump.

As ações do general da reserva e de integrantes da equipe de transição podem ter violado a Lei Logan, que impede cidadãos americanos de negociar com governos estrangeiros em disputa com os EUA. No acordo de delação premiada, Flynn também reconheceu ter mentido ao FBI sobre contatos que teve com Kislyak durante a discussão, no Conselho de Segurança da ONU, de resolução que condenava assentamentos israelenses em territórios palestinos. 

A proposta foi apresentada pelo Egito em 21 de dezembro. O governo Obama havia decidido se abster na votação, posição da qual seu sucessor discordada. Ao FBI, Flynn disse que não pediu a países que mudassem sua posição. Nesta sexta-feira, porém, ele admitiu que foi orientado pelo comando da equipe de transição a entrar em contato com integrantes do Conselho de Segurança e pedir que eles votassem contra a resolução ou adiassem seu posicionamento. 

Em 22 de dezembro, Flynn discutiu o assunto com Kislyak e solicitou que a Rússia se opusesse à proposta. No dia seguinte, o diplomata respondeu que Moscou votaria em favor da resolução, o que de fato ocorreu.

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.