Exército massacra 238 partidários de Morsi e decreta emergência no Egito

Ministro do Interior diz que 43 policiais também morreram nos confrontos; vice-presidente renuncia

O Estado de S. Paulo,

14 Agosto 2013 | 04h26

Mulher se coloca entre escavadeira e jovem ferido. Foto: AFP/ Mohammed Abdel Moneim

(Atualizada às 23h45) CAIRO - O Exército egípcio decretou nesta quarta-feira, 14, estado de emergência por um mês e toque de recolher em parte do país, depois de usar tanques, helicópteros e atiradores de elite contra milhares de acampados que exigiam a volta do presidente deposto Mohamed Morsi. Ao menos 238 civis e 43 policiais morreram – cerca de 2 mil ficaram feridos, segundo o governo.

O massacre detonou uma onda de violência que se espalhou pelo Egito. O governo interino decretou estado de emergência em 11 das 27 províncias. "Quem violar essas ordens será preso", disse um porta-voz do governo em comunicado lido na TV estatal. Ao menos oito líderes da Irmandade Muçulmana foram detidos e bancos foram fechados.

O vice-presidente Mohamed ElBaradei renunciou ao cargo em protesto contra o derramamento de sangue. Em meio ao massacre, ele enviou uma carta ao presidente interino, Adli Mansour, comunicando a decisão. "Os beneficiários do que ocorreu hoje são aqueles que pedem por violência, terrorismo e os grupos mais extremistas", escreveu. "Ficou difícil continuar a ter responsabilidade por decisões com as quais eu não concordo."

A operação começou às 7 horas (2 horas no Brasil). Testemunhas dizem ter ouvido tiros de fuzis enquanto uma nuvem branca de bombas de gás lacrimogêneo se misturava com a fumaça preta de pneus queimados pelos manifestantes. Para defender o local, membros da Irmandade ergueram barricadas e lançaram coquetéis molotov e pedras contra a polícia.

"Isso é sórdido, eles estão destruindo nossas barracas. Nós não podemos respirar e muitas pessoas estão no hospital", disse Ahmed Murad, membro da Irmandade Muçulmana, no limite do acampamento, onde o grupo tinha colocado sacos de areia na expectativa de uma invasão policial. O grupo islamista acusou a polícia de atirar contra ambulâncias.

Imagens de TV mostraram médicos usando máscaras de gás e óculos de natação enquanto tentavam tratar os feridos. O governo defendeu a operação. O porta-voz do Conselho de Ministros, Sherif Shauqi, leu um comunicado que chamava os manifestantes de "os arruaceiros" e pedia que a Irmandade Muçulmana parasse de ameaçar a segurança nacional.

Havia relatos também de ataques de grupos islamistas a igrejas cristãs coptas em várias províncias do sul do Egito, que seriam uma retaliação à ofensiva do Exército contra a Irmandade Muçulmana. Os confrontos se espalharam para outras cidades, como Alexandria e Fayoum, onde nove pessoas morreram. Ali, partidários de Morsi atacaram pelo menos duas delegacias de polícia e incendiaram veículos policiais.

Segundo Mohamed Soudan, membro do secretariado da Irmandade Muçulmana, protestos realizados na capital e no interior estão sendo reprimidos com violência. "É um terrível massacre que está em curso. Estão prendendo manifestantes e até médicos que socorrem os feridos", disse Soudan ao Estado. Ainda assim, o militante acredita que a resistência continuará. "Há milhares de pessoas se mobilizando em outras cidades contra os líderes do golpe."

Apesar da esperança de reação, a estratégia de terror das forças de segurança parece surtir efeito. Entre os militantes islamistas ouvidos pela reportagem, o medo é onipresente. Ferido por um tiro na perna há duas semanas, durante massacre em Rabaa, o advogado Ramiz Nabil retornou a Alexandria, sua cidade, e desistiu de voltar às ruas. "Eles são criminosos, não policiais. Eles atiram com munição real na população civil", conta. "Há um genocídio em curso." / NYT e REUTERS. COLABOROU ANDREI NETTO

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