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Martin Meissner/AP

ENTREVISTA: Yves Camus

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União Europeia

‘Extrema direita considera UE muito distante’, diz cientista político

Pesquisador avalia que grupos radicais atuais na Europa aprenderam a apresentar discurso mais palatável ao eleitorado

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Andrei Netto

17 Janeiro 2016 | 02h00

PARIS - Falar em extrema direita na Europa é um erro, assim como associá-la ao nazismo e ao fascismo do início do século 20. O correto é falar em extremas direitas, em partidos nacionalistas, populistas e xenofóbicos que ganham espaço na União Europeia. A advertência é feita pelos cientistas políticos Yves Camus e Nicolas Lebourg no livro As Direitas Extremas na Europa, publicado em Paris. 

Camus é o maior estudioso dos extremismos políticos do continente. Em seu livro, ele explica como esses movimentos estão se organizando para a conquista do poder pela via eleitoral e democrática, aproveitando-se não só da crise econômica crônica desde 2007, mas também dos questionamentos sobre identidade europeia, a representação política e a insatisfação com os partidos liberais e conservadores clássicos. A seguir, a entrevista. 

O senhor afirma que não há uma extrema direita, mas várias extremas direitas. Pode explicar por quê?

Sim, e é bastante simples, mas é preciso retornar à história da Europa. Houve, nos anos 1930, 1940, uma onda de partidos fascistas ou próximos do nacional-socialismo, e temos ainda hoje a tendência de comparar os partidos de extrema direita aos partidos dos anos 1930. Mas a Europa não é mais a mesma, assim como os partidos de extrema direita, que não são mais clones daqueles de 1930. Há, evidentemente, os que mantêm discursos racistas, antissemitas, violentos, que contestam até mesmo o princípio da democracia e podem ser chamados de partidos neofascistas. 

É o caso do Aurora Dourada, na Grécia, e de outros que têm menos apoio eleitoral. Mas há outros partidos que têm futuro. São, eu diria, mais malandros, e consideram que é preciso usar os meios de comunicação modernos, evitar as ofensas típicas do neofascismo e do nazismo. 

Esses são os partidos que emergem na Europa?

Sim, são partidos que estão em uma linha de uma direita que é extremamente dura sobre questões de identidade e de imigração, mas que podem permanecer liberais na economia. Esses partidos não utilizarão jamais os símbolos e discursos das direitas mais extremas. Outro ponto importante é que o antissemitismo, que era o coração das extremas direitas dos anos 1930, continua a existir, mas não tem mais apelo eleitoral. Os eleitores desses partidos são mobilizados principalmente pela questão da imigração muçulmana e pelos refugiados. O que lhes interessa é que a direita europeia dê valor ao mesmo tempo às raízes cristãs da Europa e descreva a imigração e a chegada dos refugiados como uma espécie de invasão.

Esses partidos não são nazistas ou fascistas, mas são populistas, nacionalistas, soberanistas, xenofóbicos, islamofóbicos… Como o senhor os classifica?

Nacionalistas, sim, em primeiro lugar. Soberanistas também, porque consideram que a única esfera de tomada de decisões políticas é o Estado nacional. Também são populistas - mas em uma definição específica de populismo, porque consideram que a democracia representativa, no fundo, vai contra os interesses do povo. Para eles, todas as elites, sejam políticas, econômicas, culturais ou midiáticas, perseguem interesses que são contrários aos do povo. 

Eles dizem que as elites são uma espécie de casta que busca seus próprios objetivos, que perverte o sufrágio universal. 

Todas essas extremas direitas passaram por metamorfoses para tentar chegar ao poder. Mas em nenhum grande país europeu são majoritárias, certo?

São partidos em posição de exercer o poder em vários países. Há partidos dessa família na coalizão governamental da Noruega, na Finlândia, na Suíça, houve na Itália e na Áustria, houve na Holanda e na Dinamarca, houve na Grécia. Há um caso específico na Hungria, de Viktor Orban, que é de direita conservadora muito dura. Mas a extrema direita já participou do poder na Polônia, na Romênia, na Eslováquia. Há exemplos demais. Não são partidos que estão fora da esfera de poder. A lógica de que eram partidos muito mal vistos está mudando rápido. 

Desde que não se use uma linguagem abertamente extremista ou fascista, desde que haja um pensamento político articulado, podem ser escolhidos como membros de coalizões governamentais. 

A União Europeia é o inimigo comum das extremas direitas?

A UE é o antimodelo. É um espaço supranacional, de livre circulação de pessoas e de mercadorias, é uma união com vínculos muito grandes com os Estados Unidos e se baseia em princípios humanistas liberais, de centro-direita ou de centro-esquerda.

É um erro atribuir a emergência das extremas direita apenas à crise econômica?

Sim, creio que seja um erro. A União Europeia ainda enfrenta uma crise econômica severa. Mas, quando observamos o mapa dos resultados eleitorais, vemos que a extrema direita vai bem até onde a crise é menos forte, como na Noruega ou na Suíça. 

Os partidos tradicionais europeus também são responsáveis pela emergência da extrema direita?

Claro. As ideologias, para serem atraentes, precisam se renovar. Dos dois lados do espectro político, não há mais utopia, não há mais sonho, mais encantamento. Estamos na era da dominação da técnica e da tecnocracia. Além disso, as classes políticas são responsáveis porque não se renovam. 

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