REUTERS/Francois Lenoir
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Extrema direita no poder

Áustria elegeu o governo conservador do jovem Sebastian Kurz, que elevou ao cargo de vice-chanceler Hans Christian Strache, aliado que, na juventude, não escondia sua simpatia pelo neonazismo

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

20 Dezembro 2017 | 05h00

No coração da Europa, um país adotou tranquilamente um governo conservador, chefiado pelo jovem prodígio Sebastian Kurz, de 31 anos. Kurz é associado a um partido de extrema direita, o Partido da Liberdade (FPO), cujo líder, Hans Christian Strache, agora vice-chanceler, não ocultava suas simpatias neonazistas na juventude. O fato de ter sido alçado à vice-chancelaria significaria que renunciou às loucuras juvenis, ou se esqueceu delas? Nada disso.

Devemos, então, temer que essa equipe rompa com a União Europeia, de cujos princípios zomba? Ao contrário. Os novos senhores da Áustria confirmaram oficialmente que seu país pertence à UE e não têm intenção de convocar um referendo popular para decidir o destino de Viena na organização de Bruxelas. 

Então, se a equipe de Kurz permanecer no seio da UE, quais serão os fundamentos de seu governo? Para começar, os antigos e bravos valores da velha Áustria, as montanhas, os prados, as vacas, a terra. Em suma, a identidade austríaca, sua pureza – e sabemos que dessa identidade não fazem parte os muçulmanos. O anti-islamismo será um dos “grandes valores” da nova Áustria. A islamofobia e a xenofobia cimentarão a união dos dois partidos, de direita e de extrema direita, agora no poder. 

Quanto a isso, para deixar as coisas claras, o novo governo austríaco apresentou-se no Monte Kahlenberg, lugar sagrado para os vienenses: lá foi derrotada em 1683 a última onda das forças otomanas e lá começou a reconquista cristã dos territórios dominados pelos muçulmanos. 

Os ministros populistas (do FPO) terão ministérios importantes: Finanças, Economia, Educação, Família, Justiça e Agricultura. O secretário de Estado, Herbert Kicki, que será o novo chefe de polícia da Áustria, velará sobre o campo de concentração de Muthasen, um centro de terror do nazismo transformado em “museu da memória”. O que vai decidir Kicki? E o que será da casa em que Hitler nasceu, em Braunau, na fronteira da Áustria com a Alemanha, que o governo austríaco tomou em 2016 com medo que se tornasse um centro de peregrinação nazista?

A Áustria de 2017 está, pois, em vias de conseguir o que já tentou (e fracassou) em 2000, com a ascensão do populista neonazista Jorg Heider. Na época, toda a Europa se mobilizou para dissipar essa nuvem neonazista: impôs sanções e isolou a Áustria com um cordão sanitário. Dezessete anos depois, a cerimônia no Monte Kahlenberg não provocou grandes convulsões entre os europeus. Apenas as organizações judaicas, que sabem do que estamos falando, manifestaram seu horror. Ironicamente, o único país que havia, até a tarde de ontem, unido sua voz à dos judeus era a Turquia. Algo lógico, mas ao mesmo tempo, fantástico. 

Angela Merkel se mantém muda. É verdade que ela está no fim da linha, justamente pela subida da extrema direita na Alemanha. O francês Emmanuel Macron, o cavaleiro sem medo que derrotou Marine Le Pen, salvando a Europa, não costuma deixar para depois. Ora, ele também, até agora, tem evitado o assunto. 

Acontece que essa nova Áustria é uma grande pedra em seu sapato. Macron estava decidido a conquistar a União Europeia. Mas hoje ele diz que seus aliados estão cada vez mais dispersos. Merkel está caída. A Grã-Bretanha dá pena. Trump... é Trump. E outros quatro países tomaram o caminho similar ao da Áustria: Hungria, Polônia, República Checa e Eslováquia. 

Então, o que sobrou para completar as tropas de Macron e enfrentar tantos “europeus antieuropeus”? A Espanha e a Itália? Alguns países do Norte? A Grécia? O Chipre? Malta? / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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