JOSE PAULO LACERDA/Estadãp
JOSE PAULO LACERDA/Estadãp

Falta de manutenção em linha de energia na Venezuela ameaça deixar Roraima no escuro

Autoridades afirmam que cortes no fornecimento de energia no Estado podem aumentar em razão da crise no país vizinho e deputado diz que linha opera atualmente com menos de 2% da capacidade; obras para conectar região ao sistema brasileiro estão paradas

O Estado de S.Paulo

12 Abril 2017 | 16h41

Um linhão de energia entre Brasil e Venezuela que já foi símbolo das ambições de integração regional da América Latina se tornou motivo de preocupação para o governo brasileiro em razão das falhas frequentes que têm prejudicado o fornecimento de eletricidade em Roraima.

Com apenas 500 mil habitantes e em meio à floresta Amazônica, o Estado conta com a energia venezuelana para reduzir o uso de usinas termelétricas - caras e poluentes -, mas essas usinas têm sido cada vez mais acionadas e mesmo assim não conseguem evitar a queda do sistema em diversos momentos, disse uma autoridade brasileira com conhecimento direto do assunto.

Inaugurada em 2001 pelos presidentes Hugo Chávez e Fernando Henrique Cardoso, a linha de transmissão entre os países recebeu cerca de 200 milhões de dólares em investimentos e tinha como objetivo assegurar o suprimento de Roraima por ao menos 20 anos, mas o desempenho da estrutura já apresenta forte deterioração.

"A interligação com a Venezuela passa por momentos difíceis. Nos últimos tempos essa linha tem sofrido uma série de interrupções. O problema (agora) não é de água, é a linha, é a transmissão. Eles não têm recursos, não dão manutenção na linha, então ela cai mesmo", disse a fonte, que falou sob anonimato devido à sensibilidade do tema.

Em um debate na Assembleia Legislativa de Roraima há duas semanas, o deputado Izaias Maia (PT do B) pediu união dos políticos locais para resolver a situação da linha, que, segundo ele, operaria atualmente com menos de 2% da capacidade.

"Se cruzarmos os braços, a escuridão vai tomar conta do Estado de Roraima", afirmou Maia na tribuna da assembleia, segundo registro oficial da sessão.

A coordenadora técnica da Federação das Indústrias do Estado de Roraima (FIER), Karen Telles, disse que a má qualidade do serviço de eletricidade atrapalha o dia a dia e danifica equipamentos de comércios e das pequenas e micro indústrias locais.

"Nossa energia aqui vinha da Venezuela, e com essa crise deles gradativamente foi precarizando o suprimento", afirmou.

Ela ressaltou que os problemas foram ainda piores em 2016, quando houve uma crise hídrica na Venezuela, e disse que as falhas preocupam os empresários locais, afugentam investimentos e geram transtornos e prejuízos.

"Em um dia da semana passada tivemos três interrupções em dez minutos. Imagine isso dentro de uma planta industrial. Existe receio de investir em maquinário, coisas que poderiam melhorar a produção, porque você pode perder o equipamento", disse Karen.

Questionado sobre os problemas, o Ministério de Minas e Energia brasileiro afirmou que reuniu um grupo de órgãos técnicos do setor elétrico para avaliar soluções.

"O grupo de trabalho analisará alternativas que contribuam para aumentar a confiabilidade, a segurança e a eficiência do suprimento de energia à região, no curto, médio e longo prazos", disse a pasta, em nota. De acordo com dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a qualidade do serviço de eletricidade em Roraima, que já estava entre os piores índices do país, caiu fortemente no ano passado.

A duração das interrupções no suprimento elétrico no centro da capital Boa Vista cresceu 66% em 2016 ante o ano anterior, enquanto a frequência das falhas subiu 57%. Ainda não há dados de 2017. Procuradas, autoridades venezuelanas não comentaram a situação. O governo de Roraima também não retornou um pedido de comentário. 

Linhão travado. O Brasil chegou a licitar ainda em 2011 a concessão para construção de uma linha que faria a conexão de Roraima ao sistema interligado do país, mas até hoje o empreendimento sequer teve obras iniciadas por falta de licença ambiental.

O linhão ficou a cargo de uma parceria entre a privada Alupar e a estatal Eletronorte, da Eletrobras, mas a Alupar já manifestou desejo de deixar o empreendimento após anos de espera pela liberação ambiental.

Recentemente, durante evento com acionistas, o presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Jr., disse que o governo segue empenhado em viabilizar a linha, que irá até Boa Vista. Segundo ele, a estatal avalia traçados alternativos para que o projeto possa continuar.

"A linha é extremamente importante e o parceiro desistiu do negócio. Provavelmente será feito por nós da Eletrobras", disse. A Alupar não respondeu pedidos de comentário sobre o empreendimento. Atualmente, Boa Vista é a única capital que não faz parte do sistema interligado brasileiro.

Na época em que o linhão foi licitado, o governo federal disse que a conexão de Roraima ao sistema permitiria que o Estado seja abastecido com energia de hidrelétricas e outras fontes enviada por outras regiões do Brasil, e não mais apenas com geração venezuelana e de termelétricas locais, como atualmente. / REUTERS

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