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Famílias de Taiwan recebem cartas de adeus décadas após execuções

- Atualizado: 17 Fevereiro 2016 | 17h 29

Cartas escritas por ativistas políticos vítimas da repressão política conhecida como Terror Branco não foram entregues para as famílias; pelo menos 177 foram descobertas na década passada

TAIPÉ - No mês anterior à sua execução, em abril de 1952, Guo Ching escreveu cartas de despedida para a mãe, a esposa e os filhos. Elas tinham que viajar apenas 225 quilômetros, mas levaram 60 anos para ser entregues.

Quando finalmente recebeu a despedida do pai, depois de uma prolongada negociação com o governo de Taiwan, a filha estava com mais de 60 anos, o dobro da idade que ele tinha quando morreu.

Guo Su-jen, cujo pai foi executado em 1952, cuida de seu jardim em Taipé; ela recebeu uma carta de despedida mais de 60 anos depois

Guo Su-jen, cujo pai foi executado em 1952, cuida de seu jardim em Taipé; ela recebeu uma carta de despedida mais de 60 anos depois

"Chorei muito, porque finalmente podia ler o que meu pai escrevera. Se eu nunca tivesse visto sua letra, não o perceberia como uma pessoa viva. Sua escrita o fez viver novamente. Sem ela, continuaria apenas na minha imaginação, com a imagem que fiz", disse Guo Su-jen.

As cartas estavam entre as 177 missivas descobertas na década passada, todas escritas por vítimas da repressão política conhecida como Terror Branco. De 1947 até 1987, dezenas de milhares de taiwaneses foram presos e pelo menos mil foram executados, a maioria no início dos anos 50, depois de serem acusados de espionar para a China comunista.

As cartas perdidas, que foram entregues aos familiares nos últimos anos, são lembranças dolorosas de décadas do regime autoritário de Taiwan, uma pequena parte da história enterrada em arquivos oficiais mal catalogados. Mas a vitória esmagadora da presidente eleita, Tsai Ing-wen, e seu Partido Progressista Democrático, em janeiro, pode em breve revelar muitas outras passagens dessa história: em sua campanha, ela prometeu maior dedicação para expor e corrigir as injustiças do passado autoritário do país.

Porém, as cartas não são apenas provas documentais; são também as últimas expressões de amor vindas do além. Encerram palavras de conforto para as crianças que cresceram sem conhecer seus pais e os últimos pedidos de desculpas aos cônjuges que iriam criar os filhos sozinhos.

Elas foram descobertas por acaso, em 2008, quando uma jovem solicitou informações sobre o avô ao arquivo principal de Taiwan.

Duas semanas após a solicitação, Chang Yi-lung, recebeu uma pilha de mais de 300 páginas de documentos fotocopiados, a maioria deles de registros e decisões judiciais. Nessas páginas, descobriu cartas que seu avô havia escrito para seus tios e sua mãe, que ainda não havia nascido quando ele foi morto.

A ela, escreveu: "Em pouco tempo vou deixar esta terra. Estou tentando manter a calma, falar com você pela primeira e última vez através deste papel. Infelizmente, acho que você não pode imaginar como é. Encarar este momento e não poder vê-la uma vez, abraçá-la uma vez, beijá-la uma vez... Estou arrasado. Minha tristeza não tem fim".

Chang Yi-lung disse que a reação da mãe à carta não mudou desde a primeira vez que a leu. "Toda vez que a lê, é a mesma coisa. Começa a chorar na primeira palavra. Ela não conheceu o pai, então era como se ele não existisse, mas quando viu a carta, soube tinha um pai e que ele a amava", disse Yi-lung.

Liu Yao-ting (E), uma das vítimas do Terror Branco, e sua mulher Yueh-Hsia ao lado das carta que ele escreveu e foram recuperadas pela Associação para Verdade e Reconciliação de Taiwan

Liu Yao-ting (E), uma das vítimas do Terror Branco, e sua mulher Yueh-Hsia ao lado das carta que ele escreveu e foram recuperadas pela Associação para Verdade e Reconciliação de Taiwan

O governo de Taiwan reconheceu alguns dos traumas do passado - incluindo a criação de um museu dedicado ao notório massacre de 1947 -, mas os pesquisadores dizem que poucos recursos foram empregados no levantamento das décadas de repressão política sob o governo do Kuomintang de Chiang Kai-shek, o Partido Nacionalista Chinês, que governou Taiwan como um Estado de partido único, de 1945 até as primeiras eleições presidenciais democráticas, em 1996.

Acadêmicos dizem que pouco se sabe sobre os mecanismos de repressão do Kuomintang e não houve um exame minucioso e transparente dos arquivos. Embora os pesquisadores acreditem que muitos registros tenham sido destruídos, acham também que muitos outros não vêm à tona por negligência intencional.

"Sabemos que há centenas de milhares de registros aos quais poderíamos ter acesso, mas não houve nenhum esforço sistemático para analisá-los. Qual é a porcentagem que vimos? Pode ser 10, 90 por cento. Não faço ideia, e não acho que alguém faça", disse Huang Chang-ling, professora de Ciências Políticas da Universidade Nacional de Taiwan.

Depois de receber as cópias das cartas de seu avô, a família de Yi-lung exigiu os originais. O governo se recusou a princípio, argumentando que os documentos pertenciam ao arquivo. Em 2011, com a ajuda da Associação para Verdade e Reconciliação de Taiwan, eles finalmente foram entregues à família.

A associação, uma organização não-governamental com sede em um prédio sem elevador no centro de Taipé, mantém cartas e objetos pessoais doados por parentes dos executados. Seu presidente-executivo, Yeh Hung-ling, espera que tudo possa um dia ser exibido em um museu dedicado ao Terror Branco.

Entre as lembranças estão álbuns de fotos que pertenciam aos prisioneiros executados. Alguns deles decoraram os livros com papéis de bala caprichosamente dobrados, usando os materiais de que dispunham para passar o tempo, disse Yeh. Algumas cartas foram escritas em chinês simplificado, o que mostra que muitos dos que foram detidos na prisão do Kuomintang, onde hoje fica o Sheraton Grand Taipei, e tinham um conhecimento limitado da escrita chinesa, resultado de 50 anos de colonização japonesa.

A maior parte delas é curta e formal e as mensagens simples contradizem sua importância para as famílias.

Para Guo Su-jen, as cartas são uma grande vitória em uma vida dedicada a reunir pistas sobre o que aconteceu a seu pai, levado pela polícia secreta quando tinha 3 anos. Ela disse que sua mãe sentia raiva dele por ter colocado a política à frente da família e por arriscar tudo ao se juntar a um grupo comunista clandestino.

Carta do ativista político Liu Yao-ting, uma da vítimas da repressão em Taiwan conhecida como Terror Branco, que executou mais de mil pessoas acusadas de espionarem para achina entre 1947 e 1987

Carta do ativista político Liu Yao-ting, uma da vítimas da repressão em Taiwan conhecida como Terror Branco, que executou mais de mil pessoas acusadas de espionarem para achina entre 1947 e 1987

"Ela só tinha 23 anos. Deixou de ser uma jovem estudante para se casar. Era um ambiente simples e então o céu desabou. Nunca entendeu por que ele fizera aquilo, por que deixara todo o fardo para ela", conta Su-jen. A carta ajudou sua mãe a perdoar, mas chegou apenas no final de sua vida, quando a mente já começava a falhar.

Em alguns casos, reabriram debates emocionais. Alguns estudiosos afirmam que as pessoas como o pai de Su-jen não foram perseguidas injustamente - no caso dele porque se juntou a um grupo comunista na época em que o Kuomintang saia de uma guerra de décadas contra o Partido Comunista Chinês.

Su-jen diz que o comunismo do pai não tinha nenhuma conexão com a China e que foi uma reação à repressão do Kuomintang. De qualquer forma, diz ela, o mais importante é que os registros sejam catalogados e liberados.

"Por muito tempo as pessoas mantiveram silêncio sobre a questão. Quanto regredimos enquanto sociedade? Muitas pessoas foram mortas e presas, qual o efeito disso? Tudo isso precisa ser discutido."

Para algumas famílias, esse tipo de discussão é impossível. A avó de Yi-lung morreu antes que pudesse ver a carta do marido, onde ele pedia que ela se casasse novamente. Em um livro sobre as cartas, a mãe de Yi-lung contempla a perda desconhecida causada por uma mensagem que nunca chegou:

"Seis anos casada, 56 anos viúva. Minha mãe passou a vida sem nunca ter visto a carta e não se casou novamente. A história não tem "ses", mas se tivesse recebido a carta no ano em que foi enviada, será que teria levado a mesma vida?" / NYT

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