REUTERS/Edgard Garrido
REUTERS/Edgard Garrido

Famílias vivem nas ruas três meses após terremoto

Governo da Cidade do México parou de ajudar as famílias que perderam suas casas no tremor que danificou mais de 48 mil prédios

Luciana Dyniewicz, Especial Para o Estado / Cidade do México, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2017 | 07h00

CIDADE DO MÉXICO - Quase três meses atrás, o taxista Bruno Gómez, de 65 anos, se preparava para ir trabalhar quando sentiu o chão começar a tremer. Deixou correndo o apartamento em que morava, no número 100 da Rua San Luis Potosí, na Cidade do México, e esperou, na calçada, que o terremoto passasse. É neste mesmo local que ele e outros 11 vizinhos vivem desde então.

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Gómez é um dos mexicanos que foram obrigados a deixar suas casas porque seus imóveis foram considerados em situação de risco após o terremoto de 19 de setembro, que matou 369 pessoas no país. No total, 48 mil casas foram danificadas - 22% delas destruídas completamente.

Logo após a tragédia, Gómez recebeu ajuda de seus conterrâneos, que doaram alimentos, roupas e as barracas de acampamento que hoje estão montadas diante do edifício em que o taxista vivia e onde ele e seus vizinhos agora dormem. Há 5 semanas, a ajuda parou de chegar. “As pessoas e o governo vão esquecendo. No início, as propostas eram alentadoras e diziam que a reconstrução seria imediata, mas depois o governo foi colocando empecilhos”, diz.

O taxista se refere à documentação que comprova que o prédio em que vivia foi danificado pelo terremoto. Ele conta que um primeiro funcionário da Defesa Civil já esteve no local e declarou o imóvel inabitável, mas é necessária uma segunda visita. “Enquanto eles não vêm, não é possível fazer nada.”

Gómez conversa sentado em um banco de madeira posicionado diante da porta do edifício em que vivia. Ali há também um sofá, uma poltrona, uma televisão e utensílios de cozinha, além das barracas. Tudo está coberto por uma lona e encostado no prédio condenado ou a uma distância de no máximo dois metros. Do lado externo, uma faixa amarela isola o local e há um cartaz onde se lê “danificados pelo sismo. Exigimos do governo da Cidade do México a expropriação em favor dos que viviam aqui”.

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O taxista, que morava ali havia cinco anos, afirma se preocupar com a possibilidade de que partes do imóvel cedam, ferindo os que acampam no local, mas diz ter mais medo de que “alguém da rua” se aproprie de seus pertences.

Gómez destaca que, para ele, o mais importante é que a documentação que atesta os danos no imóvel seja emitida ainda em dezembro, porque “nada acontece no país no fim do ano”. “Aí, teremos de passar o Natal aqui e esperar 2018”, diz.

Sua vizinha Esther Ruiz, de 49 anos, também está vivendo no acampamento e diz não acreditar na ajuda do governo. “Quem sabe alguma associação. Mas não vamos sair daqui. Precisam arrumar (o prédio).”

O edifício em que os dois viviam era um dos mais simples de Roma, bairro de classe média da capital mexicana, repleto de cafés, restaurantes e bares, semelhante a Pinheiros, em São Paulo. Roma e a vizinha Condesa, de perfil semelhante, estão entre os bairros que mais sofreram com o terremoto. 

Na Rua Amsterdã, em Condesa, diante de um bar em que mexicanos bebem na calçada e a uma quadra do badalado restaurante Azul (famoso entre turistas), estão as ruínas de um edifício residencial de oito andares - sobraram apenas o térreo e coroas de flores. Cinco pessoas morreram soterradas ali.

Segundo Víctor Manuel Cruz Atienza, chefe do departamento de sismologia da Universidade Nacional Autônoma do México, Roma e Condessa estão entre as zonas mais destruídas por estarem sobre um solo menos resistente a terremotos, o solo lacustre (a Cidade do México foi construída sobre um lago) e perto de uma área cujo solo é uma mescla do lacustre e do firme, a zona limítrofe. Segundo Atienza, a zona limítrofe teria amplificado as ondas sísmicas.

Além de residências, 8,2 mil escolas e 1,4 mil edifícios históricos foram danificados. O governo mexicano estima que levará dois anos e meio para recuperar o patrimônio histórico e cultural e informou que serão concedidos até 120 mil pesos (R$ 20,6 mil) para quem perdeu a casa. Para os donos de imóveis danificados, o valor é de 15 mil pesos (cerca de R$ 2,6 mil).

Procurado, o governo da Cidade do México, responsável pela licença e perícia de construções, informou que a emissão de documentos dos imóveis danificados depende da complexidade de cada caso e disse que os trabalhos estão sendo feitos “o mais rápido possível”.

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