Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Internacional

Internacional » Fatos que explicam a crise entre sauditas e iranianos

Internacional

ALKIS KONSTANTINIDIS | REUTERS

Fatos que explicam a crise entre sauditas e iranianos

Execução de clérigo levou à escalada da retórica sectária que se espalhou pelo mundo muçulmano nos últimos anos

0

Adam Taylor, The Washington Post,
O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2016 | 06h44

A execução do clérigo xiita Nimr Baqr al-Nimr pela Arábia Saudita provocou furor no Oriente Médio nas fileiras sectárias. No Irã, a superpotência xiita da região, a embaixada saudita foi saqueada e incendiada. O reino saudita e seus diversos aliados sunitas romperam ou rebaixaram o nível das suas relações diplomáticas com Teerã. Em diversos Estados de maioria sunita, integrantes da minoria xiita saíram às ruas para protestar contra a morte de Nimr.

Esses fatos constituem uma escalada preocupante da retórica sectária que se propagou pelo mundo muçulmano nos últimos anos e ajudam a agravar os conflitos na Síria, no Iraque e no Iêmen. Embora seja um erro colocar toda a culpa no cisma religioso que divide sunitas e xiitas há quase 17 séculos, não podemos negar que a atual divisão reforça muitas outras rivalidades e disputas e talvez seja explorada por alguns com outros objetivos.

A divisão entre islamismo xiita e sunita ocorreu em 632 a.C., após a morte do profeta Maomé, considerado por não muçulmanos o fundador da religião. A disputa surgiu do desacordo sobre quem deveria suceder a Maomé como califa do Islã: os sunitas achavam que Abu Bakr, pai da mulher de Maomé e um amigo pessoal, deveria liderar os muçulmanos em razão de um consenso entre a comunidade muçulmana. Para os xiitas o califa deveria ser Ali Ibn Abi Talib, primo e cunhado de Maomé.

Essa disputa inicial levou a um conflito mais longo sobre quem deveria liderar a comunidade islâmica: para os sunitas os líderes muçulmanos teriam de ser escolhidos entre os mais qualificados, ao passo que os xiitas achavam que a escolha deveria ter como base a linhagem de Maomé. Ali tornou-se o quarto califa, mas foi assassinado e seu filho, morto. Para os xiitas ele é o único califa legítimo, ao passo que os sunitas consideram legítimos os sucessivos califados das dinastias dos Omíadas, dos Abássidas e Otomanos.

A maneira como os dois grupos se consideram é mostrada nos seus nomes. A palavra sunita vem de “Ahl al-Sunnah”, o “Povo do Caminho”, sugerindo que eles seguem as tradições estabelecidas pelos ensinamentos e hábitos de Maomé. O termo xiita provém de “Shi’at Ali”, que significa “Partido de Ali”, indicando seu vínculo à linhagem de Maomé.

Minoria. O islamismo xiita começou como um movimento no seio da comunidade islâmica e hoje é uma minoria. Estimativas exatas são difíceis de obter, mas em 2009 um estudo do Pew Research Center calculou que em torno de 10% a 13% da população muçulmana no mundo era composta de xiitas e 87% a 90% de sunitas. A maioria dos xiitas vivia em países como Irã, Paquistão, Índia e Iraque. No Irã, país com cerca de 77 milhões de habitantes, 95% da população é xiita, o que significa que mais de um terço dos xiitas no mundo vive nesse país. Por outro lado, em muitos outros países a população é formada por maioria sunita, incluindo Egito, Jordânia e Arábia Saudita.

Em várias nações importantes no Oriente Médio há uma relativa divisão. No Iêmen, 40% são xiitas, por exemplo, e no Líbano eles formam entre 45% e 55% da população. Mas a demografia nem sempre significa o controle da liderança política. Na Síria a maioria da população é sunita, mas o presidente Bashar Assad e seu pai, falecido, são alauitas, uma outra corrente do islamismo xiita. A liderança no Bahrein é sunita, mas a maioria dos cidadãos do país é xiita. O Iraque também tem uma maioria xiita, mas o país foi governado durante décadas pelo ditador sunita Saddam Hussein.

Interpretação. A divisão entre sunitas e xiitas com frequência é comparada à do catolicismo e protestantismo na Igreja Cristã. É uma comparação errônea, mas útil em alguns aspectos, uma vez que mostra como duas seitas religiosas chegam a divergir com relação à interpretação do mesmo material que lhes serve de fonte, e como os argumentos sobre doutrina religiosa e liderança acabam se transformando em violência política.

Tanto sunitas quanto xiitas aceitam o Alcorão e os ensinamentos do profeta Maomé como base da sua religião. Muitas de suas tradições são as mesmas: praticam o jejum no Ramadã e fazem peregrinação à cidade sagrada da Meca. Mas têm divergências quanto à prática da fé. Os sunitas se concentram mais na interpretação da escritura islâmica, ao passo que os xiitas seguem a orientação dos líderes religiosos.

Dentro da comunidade xiita há várias ramificações, muitas envolvendo suas crenças sobre quem lideraria o Islã após a morte de Ali. Por exemplo, os membros de uma ramificação mais ampla, conhecida como dos Doze, acreditam que houve 12 líderes chamados imãs, após Maomé. Dentro do islamismo sunita há várias escolas de pensamento diferentes com interpretações distintas da lei islâmica.

Vale a pena observar que há outras comunidades islâmicas fora da denominação mais ampla, sunita e xiita. O sufismo, ramo do islamismo que enfatiza os elementos espirituais e místicos da fé, tem vínculos com as duas comunidades, sunita e xiita. Outra escola predominante em Omã, o movimento Ibadi, seria predecessora das escolas sunita e xiita.

Rivalidade. O cisma entre os movimentos sunita e xiita começou de modo sangrento, com Ali Ibn Abi Talib assassinado e seu sucessor morto e degolado em batalha. No decorrer dos anos, a minoria xiita às vezes foi perseguida por autoridades sunitas e vice-versa. Posteriormente, quando a dinastia Safávida estabeleceu o islamismo xiita como religião de Estado da Pérsia, entrou em conflito com o califado sunita, que tinha sua base no Império Otomano.

Mas representar a rivalidade entre os dois grupos como um choque constante é totalmente equivocado. Sunitas e xiitas viveram muito felizes juntos, casando-se entre si e compartilhando locais de oração. E além disso, onde havia confrontos entre eles, ocorriam também choques com outras religiões nesses períodos. E como alguns observaram, jamais houve uma guerra entre sunitas e xiitas com a ferocidade da Guerra dos Trinta Anos, que envolveu diferentes movimentos cristãos (e que, segundo estimativas, deixou 8 milhões de mortos).

A divisão entre sunita e xiita também diminuiu no início do século 20 com o aumento dos movimentos nacionalistas árabes. O movimento Baath, que chegou a dominar o Iraque e a Síria, mesmo que com partidos políticos separados, enfatizava o nacionalismo e o socialismo acima das divisões religiosas.

Política. O mundo muçulmano hoje está dividido em seitas. A disputa entre Arábia Saudita e Irã em razão da morte de Al-Nimr é apenas o incidente mais recente. Há uma guerra civil na Síria que contrapõe forças sunitas e xiitas. Há divisões sectárias similares nos combates no Iêmen. A paralisia política no Iraque em grande parte se deve à violência e à desconfiança entre sunitas e xiitas. No Paquistão e Afeganistão, profundas tensões permanecem entre a minoria xiita e extremistas sunitas.

Segundo analistas, essas tensões remontam a 1979 e à Revolução Iraniana que deu origem a uma república islâmica no país, liderada pelo aiatolá Khomeini. Esse movimento era considerado uma ameaça por muitas potências sunitas na região não só porque o Irã era governado por xiitas. O aiatolá assumiu posições ferozmente antiamericanas, o que provocou conflitos com os aliados dos americanos, como a Arábia Saudita. Talvez mais importante, o Irã era um importante país do Oriente Médio onde líderes religiosos detinham o poder político, e mesmo sendo xiitas no Irã poderiam potencialmente ser um modelo para movimentos islamistas também no mundo sunita.

Além do que, o governo iraniano passou a apoiar movimentos xiitas em todo o mundo, frequentemente com violência. Forneceu muito financiamento e treinamento para o Hezbollah no Líbano e depois para várias milícias xiitas no Iraque. As coisas pioraram após os ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. A invasão do Iraque em 2003 e a Primavera Árabe, sete anos depois, também empurraram sunitas e xiitas para novos conflitos.

O Estado Islâmico, organização extremista detestada pelas potências xiitas e sunitas, surgiu em meio a essa disputa, cujo líder Abu Bakr al-Baghdadi não só se proclama sucessor do califado otomano sunita, mas afirma também ser descendente do profeta Maomé, numa aparente tentativa de atrair os xiitas.

Como Marc Lynch, da George Washington University, observou em 2013, com frequência esse sectarismo tem sido explorado para obtenção de ganhos políticos. E parece ser este o caso novamente, com a Arábia Saudita abrindo uma frente sunita contra o Irã depois de ser pressionada econômica e geopoliticamente. Muitos dos grandes conflitos no Oriente Médio no momento não parecem tão sectários quando examinados de perto. A guerra na Síria teve início como tentativa para depor o ditador árabe. Os rebeldes houthis no Iêmen podem ser xiitas, mas fazem parte da minoria yazidi, teologicamente mais próxima do islamismo sunita. Egito e Líbia podem estar enfrentando grupos insurgentes islamistas poderosos, mas os conflitos têm pouco a ver com suas populações xiitas, cujo tamanho é desprezível.

Al-Nimr, clérigo saudita xiita pouco conhecido cuja execução provocou as recentes tensões, parece ter dado pouca importância ao sectarismo numa reunião com autoridades americanas em 2008, dizendo que só desejava se aliar com “pessoas” contra o governo, segundo telegramas divulgados pelo WikiLeaks. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Comentários