Favorito em eleição, kirchnerista boicota debate 'para evitar agressões'

Favorito, Daniel Scioli não vai a encontro entre candidato à presidência na eleição do dia 25 e oponentes exploram ausência

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2015 | 02h04

BUENOS AIRES - Em um debate boicotado pelo favorito, o governista Daniel Scioli, cinco candidatos opositores à presidência argentina reuniram-se neste domingo à noite, 4, em um confronto inédito e invisível para a maior parte da população - só um canal o transmitiu. A atenção recaiu sobre o conservador Mauricio Macri e o ex-kirchnerista Sergio Massa, que duelam por vaga num segundo turno sabendo que equilíbrio entre eles favorece o triunfo de Scioli já no dia 25.

A recusa do governista de participar do confronto de propostas negociado há meses pela ONG Argentina Debate derrubou o interesse pelo encontro. Com a ausência dele, anunciada dia 23, os meios de comunicação controlados direta ou indiretamente pelo governo de Cristina Kirchner abandonaram o projeto de transmissão.

"Os debates adquirem muitas vezes um tom de agressão e isso não corresponde ao espírito que a população espera", disse horas antes do encontro Scioli ao canal América, o único que aceitou transmitir o confronto. O governista foi a um festival de rock patrocinado pela Província de Buenos Aires, que governa há oito anos.

Scioli já havia justificado sua ausência ao Estado no dia 26, na quadra de futsal em que costuma jogar nos fins de semana. "Todos os dias, debato. A população me conhece há muitos anos, me vê governar, então, sabe quais são as políticas que defendo", justificou, diante de jornalistas brasileiros e espanhóis. Ele afirmou ainda que se perguntasse a Macri "sobre coisas das quais as pessoas querem definição" isso assustaria ainda mais a população e o rival seguiria baixando nas pesquisas.

Scioli se referia ao momento de instabilidade do conservador e prefeito de Buenos Aires, que teve seu principal candidato a deputado, Fernando Niembro, envolvido em denúncias de pagamento pela prefeitura por serviços de comunicação não prestados. Niembro é uma celebridade no país por comentar jogos da Copa Libertadores.

O escândalo tornou-se um dos temas favoritos de Massa, terceiro colocado que os analistas colocavam fora da disputa até a primária obrigatória de 9 de agosto, quando seu grupo obteve 20,5% dos votos. Segundo pesquisa do instituto M&F divulgada neste domingo, Massa subiu para 21,5%. Macri, cuja coalizão conseguiu 30% em agosto, tem 27,9%. Scioli se mantém com os 38,6% obtidos há dois meses. Para ganhar no primeiro turno, ele precisa chegar a 40% e abrir 10 sobre o segundo colocado. Se aumentar a tendência de equilíbrio entre o segundo e o terceiro colocados, o kirchnerismo sai beneficiado. Mariel Fornoni, diretora da M&F, avalia que a campanha de Macri estagnou. Segundo ela, a ausência de Scioli no domingo não tem poder para reverter esse quadro porque na Argentina "quem lidera não debate". O país nunca teve um debate presidencial com todos os candidatos.

"Essa pequena queda de Macri alimenta esperanças dos governistas de ganhar em primeiro turno. Macri necessita voltar a crescer, principalmente na Província de Buenos Aires (governada por Scioli, onde estão 37% dos eleitores do país)", diz o analista político e consultor Ricardo Rouvier, que também não vê impacto na ausência de Scioli no debate.

Marcado para as 21 horas, o debate ainda teve de competir com o jogo entre Independiente e River Plate, dois dos times mais populares do país. Os direitos de transmissão dos jogos de futebol foram estatizados por Cristina em 2009, com o programa Fútbol para Todos. O sinal dessas partidas, que contam com propaganda de obras e programas kirchneristas, é aberto para os demais canais, que os retransmitem cientes da audiência garantida. Nem mesmo canais críticos aos kirchnerismo quiseram transmitir o debate.

 

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