REUTERS/Edgard Garrido
REUTERS/Edgard Garrido

Favorito, esquerdista modera discurso para chegar à presidência do México

Nas últimas duas eleições presidenciais mexicanas, Andrés Manuel López Obrador começou à frente, mas acabou derrotado; agora, o desgaste dos políticos tradicionais e um programa de governo recauchutado o deixam mais perto da vitória

Luciana Dyniewicz, Cidade do México, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2017 | 05h00

CIDADE DO MÉXICO - Em sua terceira disputa presidencial no México, Andrés Manuel López Obrador começa mais uma vez na liderança. Agora, porém, a vitória do esquerdista parece mais ao alcance das mãos. AMLO, como é conhecido, adotou um discurso econômico mais moderado, tem aproveitado o desgaste dos partidos tradicionais e uma explosão de antiamericanismo, que ele explora para reforçar suas credenciais nacionalistas.

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“Estou certo de que venceremos a máfia do poder”, garante AMLO, ao repetir o lema das disputas anteriores para se referir a um grupo de cerca de 30 empresários milionários e de políticos dos dois partidos mais tradicionais do país, o Partido Revolucionário Institucional (PRI) e o Partido da Ação Nacional (PAN).

Apesar de manter o mote, o discurso mudou. Prefeito da Cidade do México, entre 2000 e 2005, e líder nas pesquisas - a eleição será em julho -, AMLO adotou um tom mais moderado para tentar obter o apoio das classes mais altas, que o comparam a outros caudilhos como o venezuelano Hugo Chávez.

Em seu plano de governo, apresentado em novembro, no aniversário da Revolução Mexicana, a palavra neoliberalismo sumiu das 410 páginas do documento. No seu programa de 2012, que já era mais ameno do que o de 2006, quando disputou o cargo pela primeira vez, eram constantes os ataques ao Consenso de Washington.

Hoje, o fundador do Movimento Regeneração Social (Morena) não responsabiliza mais o capitalismo pela pobreza e pela desigualdade. Agora, a vilã é a corrupção, diz o analista político Hernán Gómez Bruera. “Ele parece o Lula. Seu discurso foi se tornando mais moderado a cada eleição, apesar de nunca ter sido tão radical como o Lula dos anos 80.”

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Para o americano Michael Shifter, presidente do centro de estudos Diálogo Interamericano, AMLO aprendeu com as últimas duas derrotas. “Ele esteve em Washington já com um discurso mais moderado. Disse que quer uma relação de respeito mútuo com os EUA”, afirmou.

Além de suavizar o discurso, López Obrador também tenta se aproximar dos endinheirados - na última reunião do FMI e do Banco Mundial, em outubro, banqueiros e economistas se mostraram preocupados com a possível eleição do candidato esquerdista no México, segundo apurou o Estado.

Para melhorar a imagem de AMLO no setor, o milionário Alfonso Romo - que já circulou pelo setor tabagista, agrícola, de seguros e fez campanha para candidatos de direita - foi escolhido como mediador. Romo foi o responsável pelo plano de governo do candidato. “A questão é se Romo conseguirá trazer (o apoio de) outros empresários”, aponta o cientista político Marco Arellano.

Segundo sondagens, AMLO tem entre 23% e 30% das intenções de voto - o número varia de acordo com o instituto de pesquisa. Os adversários aparecem com cerca de 20%, mas o que deixa o esquerdista mais próximo da presidência é que, no México, a eleição é decidida em turno único.

O cenário é o mesmo do início das corridas eleitorais de 2006 e de 2012, quando ele também começou em primeiro, mas acabou derrotado. A diferença agora é o cansaço dos mexicanos com os políticos atuais e com os escândalos de corrupção.

Apesar de López Obrador ter iniciado sua carreira no PRI e ser uma figura conhecida, ele se coloca como alguém de fora do meio político. “As condições são favoráveis para ele. A população não confia mais nos políticos tradicionais e uma parte dela compra a imagem de que AMLO não faz parte da política tradicional”, acrescenta Shifter.

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