AFP PHOTO/CRIS BOURONCLE
AFP PHOTO/CRIS BOURONCLE

Filha de Fujimori é favorita em disputa peruana marcada por rixas jurídicas

Campanha para a eleição presidencial da semana que vem começou com 19 candidatos, mas apenas 10 continuam na corrida; até partido do atual presidente, Ollanta Humala, desistiu de concorrer ante a ameaça de não superar cláusula de barreira

Luiz Raatz, O Estado de S. Paulo

03 Abril 2016 | 04h00

A campanha eleitoral peruana chega à sua semana decisiva marcada por intensas disputas judiciais que já tiraram dois candidatos da corrida presidencial e ameaçaram os dois líderes nas pesquisas e pela ascensão de uma candidata esquerdista que propõe mudanças radicais no país e a realização de uma nova Assembleia Constituinte. 

Preocupada com a sequência de impugnações motivada por uma reforma na lei eleitoral, a Organização dos Estados Americanos alertou para o risco de uma votação “semidemocrática”. 

Na sexta-feira, o Jurado Nacional Eleitoral (JNE) deu sinal verde à candidatura de Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que governou o país entre 1990 e 2000 e hoje cumpre pena de 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade. O tribunal ainda deve decidir ao longo da semana sobre a validade da candidatura do segundo candidato na disputa, o economista Pedro Pablo Kuczynski. 

Em fevereiro e março, o JNE anulou as candidaturas do economista Julio Guzmán, por irregularidades durante as primárias de seu partido, o Todos pelo Peru, e Cesar Acuña, da Aliança Pelo Congresso, por oferecer dinheiro para eleitores durante a campanha. 

A disputa começou com 19 candidatos. Depois das impugnações e renúncias, a cédula de votação ficou com 14 nomes, mas, destes, quatro renunciaram nos últimos dias.

A renúncia dos menos favorecidos nas pesquisas se presta a salvar o pescoço de seus partidos, pois eles precisam alcançar 5% do total dos votos para manter vigente sua inscrição.

Entre os que desistiram de concorrer nas eleições, está o governista Partido Nacionalista, do presidente Ollanta Humala. 

O cientista político Mauricio Zavaleta, da Pontifícia Universidade Católica do Peru, acredita que as sentenças emitidas pelo tribunal foram desproporcionais e vê a absolvição de Keiko como um indício de que o JNE percebeu que era preciso ser mais flexível. Na avaliação do analista, no entanto, isso pode levar ao entendimento de que a corte fez julgamentos políticos, ainda que a Justiça Eleitoral no país tenha a reputação de ser razoavelmente imparcial. 

“É preciso lembrar que com o fim do governo Fujimori houve um consenso sobre a necessidade de fortalecer os partidos políticos, mas isso teve como efeito colateral uma burocratização das eleições”, disse ele ao Estado. “É difícil saber se o tribunal age sob influências políticas. Mas, de qualquer forma, com a questão da compra de apoio creio que o JNE percebeu que tenha aberto uma caixa de pandora e agirá com mais cautela na reta final.”

A lei de partidos aprovada no ano passado não estabelece uma data limite para o fim das impugnações eleitorais. Em tese, até às vésperas da votação um candidato pode abandoná-la. Para o especialista em questões eleitorais, Fernando Tuesta, as modificações introduzias pelo Congresso na lei, em particular a exclusão de candidatos, não cumpre totalmente seus dois principais objetivos: reforçar os partidos e a democracia interna e acabar com o clientelismo político.”A lei nos levou para um beco sem saída”, afirma.

Com as desistências de candidatos que figuravam com bons números na pesquisa e em meio à desaceleração da economia provocada pelo fim do ciclo de alta dos minérios – base da economia peruana – a deputada esquerdista Verónika Mendoza saiu de pouco mais de 2% das intenções de voto e agora ameaça o lugar de Kuczynski no segundo turno. Os dois estão tecnicamente empatados, com 16% para o economista e 15% para a parlamentar. Keiko Fujimori tem 34% das intenções de voto, mas não deve obter votação para vencer no primeiro turno. 

“Será uma disputa acirrada pela vaga no segundo turno com Keiko. Verónika tem crescido de maneira consistente e está muito próxima de Kuczynski”, avalia Zavaleta. 

Se eleita, a deputada pode se tornar a primeira esquerdista em décadas a chegar ao poder no país, marcado nos últimos anos pela austeridade na política econômica. Mesmo Humala, que antes de ser eleito presidente era visto como um político próximo do bloco bolivariano de Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales, fez uma gestão centrista. 

Preocupação. Em meio às incertezas, o secretário-geral da OEA, o ex-chanceler uruguaio Luis Almagro, alertou na sexta-feira para o risco de uma eleição “semidemocrática” no dia 10. Na avaliação do diplomata, falta ao JNE conceder a garantia de que todos os candidatos são tratados igualmente. Ele se encontrou em Washington com Guzmán, um dos candidatos cuja candidatura foi impugnada. 

“A lei promulgada recentemente permite que os candidatos sejam impugnados numa fase muito avançada do processo eleitoral, o que é problemático porque afeta os candidatos e a cidadania”, observou Renato Weber, a chefe da missão de observação da União Europeia. Pouco mais de 21 milhões de peruanos estão habilitados para votar nas eleições de domingo. 

Mais conteúdo sobre:
Keiko Fujimori Alberto Fujimori Peru

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.