REUTERS/Christian Hartmann
REUTERS/Christian Hartmann

Fillon desce ao inferno

Nos bastidores, aliados do ex-primeiro-ministro francês celebram sua queda

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2017 | 05h00

As bancas de jornais foram tomadas de assalto ontem de manhã em Paris porque às quartas-feiras sai o jornal Le Canard Enchainé, a publicação satírica francesa mais antiga, mais engraçada e dez vezes mais inteligente que Charlie Hebdo. Por que tamanha ansiedade nas bancas? Ocorre que na semana passada, Le Canard nos presenteou com um furo. O alvo foi o candidato do partido da direita clássica, Republicanos (LR), François Fillon, ex-primeiro-ministro de Sarkozy, que representará a direita nas eleições presidenciais de maio.

Fillon é um personagem considerável – soturno e triste como um cipreste, mas não se cansa de enaltecer a honra, a pureza, a moral, o cristianismo e a lealdade, maldizendo a degradação dos costumes políticos, a trapaça e a corrupção. Le Canard Enchainé analisou esse ícone da virtude e o demoliu pedra por pedra, embora hoje Fillon não seja mais do que uma estátua desmembrada, uma ruína, um mármore que virou pó.

Fillon replicou. Ele sacou suas armas costumeiras e saiu brandindo sua lealdade, seu desinteresse, sua virtude. Mas os documentos do jornal provaram que, ao recrutar a própria mulher para o cargo de assessora parlamentar regiamente paga e para tarefas jamais realizadas, Fillon mudou bruscamente de categoria: ontem, medalha de ouro da virtude; hoje, medalha de prata da desonestidade. Os leitores se surpreenderam. “Como, Fillon, o nosso Fillon, o deputado mais correto da França?”

Conhecemos o método do Canard Enchainé. Ele jamais afirma algo inexato. E quando agarra uma presa, não larga mais. É uma bicada atrás da outra. É por isso que havia fila nas bancas. O dinheiro dos leitores foi bem gasto.

O jornal os brindou com três páginas de provas e até mesmo com a correção, para cima evidentemente, das quantias pagas indevidamente a Penelope Fillon – e também a dois filhos do casal. Já chegam a 1 milhão de euros – a maior parte em dinheiro público, mas também parte em dinheiro privado que mudou de mãos e foi parar no lindo castelo, nos bosques e na criação de cavalos que Fillon possui em seu distrito eleitoral, nas proximidades de Angers.

Le Canard dedica um cuidado igualmente grande à avaliação dos efeitos dessas revelações no ambiente político, uma tarefa apaixonante. Durante toda a semana, a direita bombardeou a publicação e se lançou ardorosamente na defesa da glória de Fillon e da pobre Penelope. A campanha da direita foi perfeita. Descreveu Fillon como verdadeiro baluarte de honra heroica. O próprio Sarkozy, que odeia seu ex-primeiro-ministro, cobriu Fillon de elogios.

O jornal, que contou com ouvidos aguçados nas reuniões na Câmara dos Deputados e em outros ambientes do poder, ouviu coisas terríveis. Os mesmos amigos de Fillon que, há oito dias, declaravam publicamente seu amor por ele, acabaram abrindo o jogo. Eles reconheceram que o homem cuja coragem, heroísmo e força de Titã haviam elogiado desmedidamente já está perdendo o fôlego. “Está enfraquecido”, comentou um deles. “Está nu”, acrescentou outro.

Sarkozy e seus amigos também falam do caso. Le Canard relata: Sarkozy, que no dia anterior gritara solidariedade a Fillon, se alegrou: “Está morto”. E todo mundo explodiu em gargalhadas, lembrando das lições de moral que Fillon lhes infligia.

Um dos presentes à galhofa geral explica a violência das críticas: “Sarkozy jamais lhe perdoará sua traição, sua deselegância, sua maldade. Ver como afunda em suas mentiras, falando qualquer coisa, nos faz morrer de rir. Fillon se queimou, está acabado.”

Está aí uma pequena cena da vida política francesa no ano 2017. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

 

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