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AP Photo/Lee Jin-man

ENTREVISTA: Luiz Pingarelli Rosa

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Coreia do Norte

'Foi uma ousadia e uma provocação', diz físico brasileiro

Para diretor de Relações Institucionais da Coppe/UFRJ, se não tiver realmente testado uma bomba-H, Pyongyang chegou ao menos muito perto disso

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Renata Tranches

08 Janeiro 2016 | 02h00

Em meio às dúvidas sobre a capacidade da Coreia do Norte em conduzir um teste bem sucedido com uma bomba de hidrogênio, o físico Luiz Pinguelli Rosa, diretor de relações institucionais da Coppe/UFRJ, afirma que o país conseguiu ao menos algo perto disso. Em entrevista ao Estado, ele explicou que provavelmente Pyongyang não faria um alarde internacional tão grande se não tivesse obtido algo realmente grandioso.

Os EUA levantaram dúvidas sobre se realmente se tratou de uma bomba-H. Qual sua opinião? 

Se o teste tivesse sido com uma bomba puramente atômica, de fissão, o termo mais correto, não acho que eles (norte-coreanos) fariam esse estardalhaço todo para depois serem desmoralizados. Talvez não tenha sido uma bomba de hidrogênio de fusão nuclear propriamente, mas uma bomba de fissão contendo alguns elementos de trítio, que é o hidrogênio com um próton e dois nêutrons, que daria um efeito adicional, ainda que não chegasse a ser tão forte quanto a de hidrogênio. É algo parecido, apenas não tão potente quanto aos testes dos americanos e dos russos (após a 2.ª Guerra).

Qual a diferença entre uma bomba-H e uma bomba-A? 

A bomba-A é de fissão nuclear. Ela ocorre principalmente no urânio 235, um isótopo que tem 235 partículas no núcleo, e também no plutônio, especialmente no 239, que tem 239 partículas de prótons e nêutrons no núcleo. Então, esses núcleos pesados se rompem pelo impacto de um nêutron, e foi isso que ocorreu nas bombas de Hiroshima e Nagasaki. A de Hiroshima foi uma bomba de urânio e a de Nagasaki, de plutônio.

E a bomba de hidrogênio? 

A chamada bomba-H utiliza hidrogênio, entre outros elementos leves, para a explosão. No acionamento, a detonação de uma bomba-H é feita com uma bomba-A. Ou seja, você usa uma bomba atômica para detonar a bomba de hidrogênio. Ela é muito mais forte. Dependendo da bomba, pode ser 500 vezes mais forte (do que a atômica). São as bombas que os russos e os americanos já explodiram (em testes).

Uma tecnologia que vem da 2ª Guerra? 

A 2.ª Guerra foi encerrada com uma bomba-A. Na época, não havia ainda a tecnologia para a bomba-H, somente a de fissão. Depois, na década de 50, tanto russos como americanos utilizaram (testaram) essas bombas muito mais poderosas.

E seria possível fazer um teste como esse sem ser notado?

Isso vai ser apurado. Eles (países) estão verificando os dados do impacto do tremor, a atmosfera da Coreia do Norte, isso acaba sendo desvendado.

Passou despercebida a capacidade do país de construir algo assim? 

Não. A polêmica com a Coreia do Norte já se estende há muitos anos. Ela insiste em se armar nuclearmente, é vizinha da China, que tem armas nucleares, talvez o terceiro país do mundo depois dos EUA e da Rússia. Vizinha do Paquistão, que também tem armas nucleares. A Coreia do Norte, há muitos anos, tem esse objetivo de desenvolvimento de armas nucleares. Isso é conhecido. Já houve sanções econômicas contra ela, várias pressões, principalmente dos americanos. A comunidade internacional sabe que ela tem laboratórios. O que faz dentro deles é que é o problema.

O que significa esse anúncio? 

Foi uma ousadia e uma provocação. Um governo muito ditatorial e um presidente muito imaturo, mas com uma capacidade técnica grande. A Coreia do Norte é um país muito pobre, mas que desenvolve a tecnologia militar. 

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