AFP PHOTO / GIUSEPPE CACACE
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Fragilizado, Trump deixa os Estados Unidos para primeira viagem internacional

Presidente americano passará por cinco países - Arábia Saudita, Israel, Vaticano, Bélgica e Itália - em oito dias, nos quais se reunirá com líderes políticos; ele espera voltar com compromissos concretos de seus aliados na luta contra o EI

O Estado de S.Paulo

19 Maio 2017 | 12h04

WASHINGTON - Riad, Jerusalém, Belém, Roma, Bruxelas e Sicília: o presidente Donald Trump, em dificuldades em Washington, inicia nesta sexta-feira, 19, uma viagem que será acompanhada de perto nas capitais de todo o mundo.

Esta primeira viagem prolongada - cinco países em oito dias, com uma série de reuniões - promete ser um exercício difícil para o presidente dos Estados Unidos.

A avalanche de revelações que precedeu sua partida o colocou em uma posição delicada em seu país e reavivou dúvidas sobre a sua capacidade de desempenhar a função presidencial na presença de seus homólogos.

"O fato é que ninguém sabe como Donald Trump vai se comportar ou o que dirá nas reuniões que nunca esteve", resume Stephen Sestanovich, do Conselho de Relações Exteriores (CFR, na sigla em inglês).

Os conselheiros do presidente imprevisível, de 70 anos, afirmam que seu estilo "amigável, mas franco" é uma garantia de eficiência nas relações internacionais.

Trump, pouco simpático a viagens longas, será acompanhado por sua mulher Melania, até agora praticamente ausente nas atividades públicas. Sua filha Ivanka e seu genro Jared Kushner, dois dos seus assessores mais próximos, também embarcarão no avião presidencial Air Force One. 

O magnata do ramo imobiliário, que tenta ajustar suas incendiárias declarações de campanha, terá de explicar como seu lema favorito, a "América primeiro", é compatível com o multilateralismo.

"O presidente sabe que 'América primeiro' não significa 'Estados Unidos sozinhos', muito pelo contrário", declarou o general H.R. McMaster, seu conselheiro de Segurança Nacional. Mas, além da frase, muitas questões permanecem.

Discurso sobre o Islã. A Casa Branca antecipa uma viagem "histórica", na qual o presidente irá ao encontro das três grandes religiões monoteístas. 

Em Riad, onde chegará no sábado, Trump deverá se esforçar para marcar o contraste com seu antecessor, que despertou a desconfiança das monarquias sunitas do Golfo.

Um poderoso discurso contra o Irã xiita, silêncio sobre questões de direitos humanos, provável anúncio de contratos de armas, são os ingredientes para que a recepção seja boa.

Mas o presidente faz uma aposta arriscada ao pronunciar na capital saudita, para mais de 50 líderes de países muçulmanos, um discurso sobre o Islã. "Vou chamá-los a combater o ódio e o extremismo", prometeu antes da viagem, citando uma "visão pacífica do Islã".

Em Israel, onde espera impulsionar a ideia de um acordo de paz com os palestinos, Trump se reunirá com seu "amigo" Binyamin Netanyahu (em Jerusalém), e com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas (em Belém, nos territórios palestinos ocupados).

Esta etapa será cercada de polêmicas, principalmente em razão da organização da visita ao Muro das Lamentações e a transmissão aos russos de informações confidenciais obtidas pelo aliado israelense.

O encontro com o papa Francisco no Vaticano terá um aspecto singular, uma vez que as posições dos dois homens são diametralmente opostas em questões como imigração, refugiados ou mudanças climáticas.

A Europa, onde Trump semeou confusão com declarações contraditórias sobre o Brexit, o futuro da União Europeia e o papel da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), será a última etapa de sua turnê com uma reunião cúpula da Aliança Atlântica em Bruxelas e outra do G-7 em Taormina, na Sicília.

Até agora, Trump não reafirmou o compromisso dos Estados Unidos com o artigo 5 do tratado da Otan sobre a solidariedade do seu país em caso de agressão externa.

Viagem de Nixon em 1974. A percepção da viagem nos Estados Unidos também será crucial. Consciente de que a ameaça terrorista é uma questão de preocupação central, o presidente republicano espera voltar com compromissos concretos com seus aliados na luta contra o grupo Estado Islâmico (EI).

Mas, qualquer que sejam as impressões de sua viagem, não serão suficientes para fazer esquecer os casos que sacodem a presidência em Washington.

Para Bruce Riedel, um ex-oficial da CIA e agora analista do Brookings Institution, uma comparação que naturalmente vem à mente é a viagem ao Oriente Médio em 1974 de Richard Nixon, que esperava um sucesso diplomático "para desviar a atenção do escândalo Watergate". 

"Isso não funcionou, a imprensa americana se concentrou implacavelmente sobre Watergate, tratando a viagem como um acessório, enquanto as revelações continuavam a se acumular", lembra ele. / AFP

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