França veta entrada de líderes muçulmanos

Sarkozy proíbe ingresso de imã do Catar que participaria de congresso; sucursal da Al-Jazeera em Paris recebe vídeo dos atentados, diz policial

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

27 Março 2012 | 07h43

Uma semana após o atentado que matou três crianças e um professor diante de uma escola judaica em Toulouse, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, anunciou ontem que vai barrar a entrada de imãs que participariam de uma conferência religiosa em Paris. A decisão faz parte da política de linha dura contra o ingresso de "potenciais radicais" muçulmanos após os três ataques de Mohamed Merah, que deixaram sete vítimas.

Ainda ontem, fontes da polícia francesa confirmaram que o escritório da rede de TV Al-Jazeera em Paris recebeu um vídeo dos ataques de Merah. Imagens das sete vítimas do terrorista sendo assassinadas apareceriam na gravação.

Um pen drive com o vídeo, que teria trilha sonora de versos corânicos, foi deixado na sucursal da rede do Catar. Segundo o jornal Le Figaro, uma carta reivindicando a autoria da ação também estava dentro do envelope.

Sarkozy anunciou a proibição à entrada dos religiosos em entrevista à rádio France Info. De acordo com ele, "certas pessoas" convidadas para o congresso da União Francesa de Organizações Islâmicas, entre elas o imã do Catar, Youssef al-Qaradaoui, um dos mais importantes líderes das correntes conservadoras do Islã, "não são bem-vindas".

Para Sarkozy, os religiosos que não receberão autorização de entrada na Europa "sustentam ou gostariam de sustentar discursos não compatíveis com o ideal republicano". "Eu indiquei ao emir do Catar em pessoa que esse senhor não era bem-vindo no território da república francesa", reiterou, referindo-se a Qaradaoui.

O religioso tem um passaporte diplomático do Catar e não precisaria de visto para ingressar na França. Ainda assim, o Ministério do Interior recebeu ordem de impedir a entrada dele.

Mudança. A declaração contrasta com o discurso de aproximação aos muçulmanos que o presidente vinha mantendo desde quinta-feira, quando foi revelada a identidade de Merah.

A decisão revoltou parte da União Mundial dos Sábios Islâmicos (Ulemas), da qual Qaradaoui é presidente. O religioso é autor de mais de 50 livros e é considerado um dos maiores intelectuais do Islã, tendo um programa de TV na rede Al-Jazeera.

"Nós estamos surpresos e reprovamos que a França se recuse a dar autorização de entrada ao xeque, um imã moderado, que contribuiu para livrar o Islã dos conceitos extremistas", afirmou Ali Kardaghi, secretário-geral da organização. A Ulemas condenou a ação terrorista de Merah.

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