AFP / Patrick KOVARIK
AFP / Patrick KOVARIK

Frustração com UE agrava crise democrática

Painel na USP discute estado das instituições na Europa e na América Latina

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

11 Outubro 2017 | 21h12

As promessas não cumpridas pela União Europeia ao longo de seu processo de estruturação e os desequilíbrios causados pela globalização no continente levaram a uma crise de representatividade democrática na região. Essa foi uma das conclusões de especialistas reunidos ontem no painel “Democracia em Crise? Experiências Europeias e Latino-Americanas”, promovido pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

+'Crises democráticas provavelmente são o normal', diz analista político

O grupo discutiu também a ascensão do populismo, o rechaço ao “globalismo” e o privilégio de questões locais, como o movimento independentista catalão.

Na avaliação de Bettina de Souza Guilherme, coordenadora da Rede Jean Monnet “Crisis-Equity-Democracy for Europe and Latin America”, os anseios da população europeia durante a formação do Tratado de Maastrich não foram atendidos. “A UE foi em grande medida uma frustração”, disse. “Não protegeu os europeus dos lados negativos da globalização e não trouxe os benefícios esperados.”

Jan Werner-Müller, da Universidade de Princeton, nos EUA, vê no cenário político ocidental uma disputa entre defensores de sociedades mais abertas e mais fechadas, que dá margem a populistas aparecerem. “Soluções populistas e tecnocratas são dois lados de uma moeda que não dá valor ao debate democrático”, diz. “Nos dois casos, há uma construção de consenso sem espaço para discussão de alternativas.”

“Olhando por exemplo para Rússia e Turquia, que hoje são dois países com sistemas problemáticos, me deparo com a hipótese que, de fato, nunca tenham sido democráticos”, disse Wolfgang Merkel, diretor do Centro de Ciências Sociais de Berlim. Segundo ele, recentes turbulências vividas ao redor do mundo por democracias consolidadas mostram que crises são corriqueiras. “Se estamos sempre falando de uma crise democrática, é porque provavelmente este seja o estado normal da nossa sociedade”, disse.

Radicalismo

 No painel sobre crise democrática na América Latina, o cientista político Aníbal Pérez-Liñán, da Universidade de Princenton ressaltou a importância dos radicalismos na desestabilização de regimes eleitos na região, seja por meio de golpes militares ou meios legais. 

Segundo modelo projetado pelo analista, num cenário em que tanto governo quanto oposição adotam discursos intransigentes, o risco de ruptura institucional cresce. 

Ainda de acordo com o cientista político, esses cenários também tornam-se mais voláteis quando acompanhados de crises econômicas e falta de apoio na coalizão legislativa, como foi o caso do Equador no fim do século 20 e do Brasil. 

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