REUTERS/Mariana Bazo
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Fujimori usa crise no governo peruano para solicitar indulto

Vice-presidente nega que o governo peruano tenha a intenção de libertar ex-presidente para conter processo de impeachment de Kuczynski

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2017 | 22h01

Em meio à instabilidade política provocada pela votação da destituição do presidente peruano, Pedro Pablo Kuczynski, o ex-presidente Alberto Fujimori, de 79 anos, preso desde 2007, pediu ao governo a comutação dos próximos 12 anos de sua pena por crimes contra a humanidade. O partido da filha de Fujimori, Keiko, detém a maioria no Parlamento que julga a saída de Kuczynski do poder.

A segunda vice-presidente, Mercedes Araóz, que também é chefe de gabinete de Kuczynski, negou que o governo pretenda libertar Fujimori como moeda de troca. “Não há uma data nem um prazo para decidir sobre esse pedido”, disse o gabinete em uma nota.

A libertação de Fujimori, que fechou o Congresso e deu um autogolpe de Estado no Peru nos anos 90, em um governo marcado por abusos dos direitos humanos, é uma questão sensível na sociedade peruana, capaz de mobilizar protestos de rua num cenário já bastante polarizado. 

“Num momento de bastante instabilidade como este, a libertação de Alberto Fujimori pode mobilizar os campos a favor e contra o fujimorismo, principalmente em manifestações de rua”, disse ao Estado o analista Arturo Maldonado, da PUC do Peru. 

Durante a campanha eleitoral que o levou a derrotar Keiko Fujimori por apenas 0,24 ponto porcentual, no ano passado, Kuczynski apelou aos antifujimoristas para chegar à presidência. O impacto da operação Lava Jato no país, no entanto, alterou essa lógica, segundo analistas. 

Com maioria no Congresso – 71 dos 130 deputados – Keiko valeu-se da retórica anticorrupção para pressionar Kuczynski. No último ano, o MP peruano denunciou subornos dados a pelo menos três ex-presidentes peruanos – Toledo, Alan García e Ollanta Humala, este na cadeia. Há também denúncias de que a Odebrecht teria doado dinheiro para a campanha de Keiko em 2011. 

Na tarde desta quinta-feira, 21, Kuczynski se defendeu perante o Congresso das acusações de ter mentido sobre uma consultoria de US$ 782 mil feita à Odebrecht quando ele era ministro da Economia do presidente Alejandro Toledo, entre 2004 e 2006. 

O presidente diz que não há irregularidade nos pagamentos, mas a oposição alega que ele mentiu por ter negado que havia recebido dinheiro da construtora brasileira. “Sou um homem honesto, jamais recebi propina, uma moeda, ou um benefício”, acrescentou PPK. “Minha empresa e eu não fomos contratados pelo Estado peruano. Jamais caí em conflito de interesses.”

Renúncias 

Aliados de Kuczynski deram a entender que os dois vice-presidentes, Martín Vizcarra, também envolvido em denúncias de corrupção, e Mercedes Araóz, podem renunciar caso ele seja destituído, o que abriria caminho, segundo a Constituição, para a convocação de novas eleições. 

“O dano que não farão a mim, farão ao país”, disse Kuczynski. “Está em suas mãos salvar a democracia ou afundá-la por muito tempo. Não apoiem uma destituição sem crime, pois o povo não esquece nem perdoa.”

Minoritária, a bancada do governo tem apenas 19 das 130 cadeiras da Assembleia. Com 71 congressistas, o fujimorismo precisa de 16 votos para destituir PPK. 

Discussões

Após duas horas e 20 minutos de explanação do presidente e de seu advogado, os dois se retiraram do Congresso até o meio-dia, e os 109 legisladores presentes, de um total de 130, iniciaram o debate anterior à votação sobre a vacância presidencial.

O primeiro a falar foi o esquerdista Wilbert Rozas. Ele afirmou que tanto o presidente quanto o advogado dele “não esclareceram nada”. Depois interveio o fujimorista Miguel Torres, que pediu o voto pela destituição de Kuczynski. / COM AFP e REUTERS

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