PAU BARRENA/AFP
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Futuro da Catalunha

Se Madri ceder, logo saberemos se a região separatista se engajará na aventura perigosa

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2017 | 05h00

O 11 de setembro é a festa nacional catalã. Desde 2012, ela passou a ser uma manifestação para exigir a independência da Catalunha da Espanha. Essa mudança de rumo tem sua lógica. A Diada, desde seu nascimento, em 11 de setembro de 1714, opôs Barcelona, a vibrante capital regional, a Madri. Naquele dia, tropas vindas de Madri, favoráveis aos Bourbons, arrasaram Barcelona, que já exigia autonomia em relação a Castela (ou seja, à Espanha). 

Neste 11 de setembro, 1 milhão de catalães foram às ruas de Barcelona cobrar o direito de organizar, no dia 1.º, um plebiscito sobre a independência da Catalunha. Isso equivale a dizer que o momento crucial para o destino da Catalunha se aproxima. Se Madri levantar seu veto ao plebiscito, em quatro semanas, saberemos se o destino da Catalunha será permanecer na Espanha ou se separar, para se engajar numa aventura perigosa, excitante e solitária. 

Por enquanto, Madri não cede. O chefe do governo espanhol, Mariano Rajoy, afirma que o plebiscito é ilegal, assim como a independência da Catalunha. O Tribunal Constitucional confirma. 

Frente a essa barreira constitucional, Barcelona respondeu à altura, com a impressionante manifestação de segunda-feira e a determinação do presidente do governo catalão, Carles Puigdemont. Prova da determinação de Puigdemont: ele não teme governar com o apoio do grupo de extrema esquerda e antieuropeu Candidatura de União Popular (CUP).

Por que Puigdemont aceita esse apoio aparentemente antinatural? Porque os independentistas, sozinhos, parecem não dispor de maioria. Pelas últimas estimativas, eles reuniriam apenas 48% dos votos em um plebiscito – daí a necessidade de Puigdemont se apoiar na extrema esquerda. Os separatistas catalães brandem ainda um último argumento contra os ataques de Madri. “Nós, catalães, temos a nosso favor algo muito mais importante que a legalidade: a legitimidade.”

Um argumento estranho, diga-se de passagem, mas que pode ser usado em inúmeras circunstâncias, até ironicamente. Eu, por exemplo, da próxima vez que estiver frente a um policial, um fiscal de renda ou um juiz da República Francesa, posso alegar: “Você detém a legalidade, concordo, mas eu tenho a legitimidade”. Sem dúvida, o funcionário me pedirá desculpas.

Como sair do impasse? O jornal Le Monde espreme os miolos para ajudar a Espanha nessa situação extrema. O jornal lembra que a Escócia foi autorizada a organizar um plebiscito sobre sua independência do Reino Unido. O resultado foi que os separatistas escoceses, subitamente privados de sua auréola de opositores românticos, foram derrotados. A Escócia continua a dormir docemente no leito da Grã-Bretanha.

Querem outra prova do fosso que separa a Catalunha de Madri? Há pouco tempo, atentados infames mataram inocentes em Barcelona. Toda a Espanha se indignou e chorou. Muitos acreditaram que a solidariedade entre as duas cidades seria restabelecida. Mas, alguns dias mais tarde, quando os espanhóis marchavam em memória dos mortos do dia 17 de agosto, o rei da Espanha e o premiê Mariano Rajoy foram vaiados nas ruas de Barcelona. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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