Reprodução/NYT via CubaOne Foundation
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Gerações têm visões distintas de Fidel

Pai, filho e neta enxergam Cuba e as herança do líder revolucionário de forma diferente em razão de questões econômicas e políticas

Damien Cave /  THE NEW YORK TIMES, O Estado de S. Paulo

11 Dezembro 2016 | 05h00

HAVANA - Quando Fidel Castro entrou vitorioso em Havana em 8 de janeiro de 1959, Juan Montes Torres correu para saudá-lo. Trabalhador pobre, sem escolaridade, da região rural do leste de Cuba, ele chegara à capital alguns anos antes e, como a maioria dos vizinhos, mal podia acreditar no que estava acontecendo. "Foi um choque emocional", disse Montes. "Aqueles barbudos mal vestidos haviam ganho! E estavam com a classe baixa!"

Montes, que na época tinha 25 anos, manteve-se leal a Fidel a partir daquele momento. A revolução deu-lhe educação, casa e um emprego de policial. Às vezes era encarregado de proteger o próprio comandante.

Mas a lealdade da família Montes foi diminuindo a cada geração, como em toda Cuba. O filho de Juan desiludiu-se décadas atrás, ante as restrições baixadas pelo governo. Sua neta adolescente, Rocío, sempre viveu desencantada com as condições do país. "Há tantos cubanos que acordam todo dia apenas para lutar, lutar, e isso é tudo", diz ela. "Meu sonho é ir embora."

A história de fé e desilusões da família Montes é comum. Famílias cubanas discutem Fidel desde que ele chegou ao poder. Sua morte reativou um intenso conflito de emoções para muitos cubanos que o consideravam mais que uma simples figura política. Fidel foi irmão, pai e avô para várias gerações de cubanos - uma presença familiar cujos ideais, caprichos e ego moldaram a identidade e vida diária de cada um. 

Quisessem ou não, Fidel estava sempre perto, com seus discursos de quatro horas, seus outdoors e seus slogans triunfalistas - "socialismo ou morte!" - que ajudaram a produzir vitórias iniciais na educação e na saúde, ao lado de restrições à liberdade de expressão e reunião e, mais tarde, persistentes problemas econômicos. 

Seu relacionamento com o país era acentuadamente pessoal. Robert A. Pastor, ex-assessor do presidente Jimmy Carter para a América Latina, dizia que Fidel era um dos poucos líderes mundiais chamado pelo primeiro nome. Muitos cubanos cresceram considerando-o um parente. 

"É como o pai que está presente o tempo todo, conduzindo a família nos momentos mais difíceis", diz Carlos Alzugaray Treto, ex-diplomata cubano. "Você às vezes pode não concordar, mas na maioria das vezes aprova o que ele faz."

No entanto, Fidel não era exatamente um simples boa praça. Era o líder máximo - carismático, mas de pavio curto, um guerrilheiro cujo nome os cubanos geralmente tinham medo de pronunciar. Como governou durante décadas, seu impacto na população e a percepção desse impacto mudaram com frequência. Cubanos nascidos antes da revolução o viam como uma força transformadora, para o bem ou para o mal. Os que nasceram mais tarde, principalmente após o início do colapso soviético, em 1989, tendem a vê-lo como um incômodo obstáculo às oportunidades econômicas e à integração de Cuba com o restante do mundo. 

Vivo, ele era quase sempre um enigma; morto, para famílias cubanas como os Montes ele é uma colagem de imagens que competem entre si - do jovem rebelde inspirador ao velho fora do alcance de todos. 

O pai. Montes ouviu falar pela primeira vez nos "barbudos" quando colhia café e frutas nos campos da província oriental de Guantánamo. Era o início dos anos 1950 e sitiantes pobres da área começavam a se reunir na revolta contra os ricos proprietários de terra. Fidel era um dos muitos líderes que defendiam melhores condições de trabalho. 

Em 26 de julho de 1953, Fidel realizou seu primeiro grande ataque, contra o Quartel Moncada, em Santiago de Cuba. Foi preso e três meses depois fez a própria defesa no tribunal, com um longo discurso que incluía a frase "a história me absolverá". Foi quando Montes decidiu mudar-se para Havana e apoiar Fidel e seus guerrilheiros. "Havia muita injustiça", diz Montes. "Golpes, crimes e um governo que não dava a mínima para o povo."

Comparada aos vizinhos, Cuba estava bem, com uma renda per capita em 1958 que só perdia na América Latina para a Argentina e a Venezuela, segundo estatísticas da ONU. Mas na economia cubana havia uma gritante desigualdade. Em áreas rurais como a que Montes cresceu, mais de 90% das casas não tinham eletricidade. Em Havana, as ruas viviam congestionadas por uma singular mistura de Cadillacs e mendigos. 

Após tomar o poder, em 1959, Fidel prometeu mudanças radicais. "Lutamos para dar democracia e liberdade a nosso povo", afirmou dias depois da chegada triunfal a Havana. Para Montes, ele cumpriu a palavra. Nos meses seguintes, seu governo anunciou planos de reforma agrária para dar terras aos pobres, criou impostos de 80% sobre os carrões e investiu no combate ao desemprego. 

Em dezembro daquele ano, Montes foi contratado como policial. Era seu primeiro emprego firme desde que chegara a Havana. Atrelada ao emprego estava a oportunidade de concluir gratuitamente o ensino secundário. 

Mesmo em seus 80 anos, Montes fala desses primeiros tempos na polícia com o entusiasmo de um cadete: "Quando alguém cometia um crime, prendíamos, mas sempre dentro da Justiça. Não abusávamos de ninguém. Era o mesmo tratamento para todos."

Visto de fora, especialmente de Washington, Fidel parecia subverter o sistema de Justiça cubano, executando sumariamente oponentes e lotando as cadeias. Para Montes, no entanto, o que havia era a profissionalização de uma polícia antes caracterizada pela violência e corrupção. Segundo ele, cubanos de todo o país estavam ansiosos por servir a Fidel. 

Mas havia inimigos por perto - principalmente exilados cubanos ricos que fugiram quando Fidel começou a nacionalizar propriedades. Eles eram apoiados pelos EUA e, quando fizeram o ataque da Baía dos Porcos, em 17 de abril de 1961, Montes protegia a casa de Celia Sánchez, guerrilheira famosa e antiga amante e confidente de Fidel. 

Segundo Montes, por volta das 4 da manhã houve uma movimentação intensa dentro da casa. Pouco depois, Fidel saía, cercado por uma escolta armada. "Ele parecia calmo", lembra o ex-policial. "Ninguém sabia o que estava acontecendo, que estávamos sendo atacados."

A crise dos mísseis e o embargo americano apenas reforçaram a obsessão que Fidel manteria por décadas - de que Cuba precisava se manter alerta para impedir que os imperialistas do norte a invadissem e fizessem dela um feudo americano. Numa entrevista que deu em 2012, Montes afirmou que jamais questionou essa posição, mesmo quando já criticava o autoritarismo de Fidel. Em 1970, na empreitada do governo para a produção recorde de 10 milhões de toneladas de açúcar, Montes ajudou a vigiar 300 prisioneiros políticos levados ao campo para cortar cana. 

Os prisioneiros não pareciam gente má, lembra Montes, mas "estavam errados". Ele sente o mesmo sobre parentes que criticam Fidel, incluindo alguns que se mudaram para os EUA. Mudando de posição no sofá florido de sua casa em Vedado, subúrbio de Havana, ele olha para a vizinha casa do filho. "Eles não veem as coisas em profundidade", diz. "Não entendem que tiveram a maior das oportunidades do mundo: a de estudar."

Montes gostaria que os jovens de sua família pudessem avaliar as coisas num contexto mais amplo. "Antes da revolução éramos uma família pobre, sem estudo, humilde. Aí houve a mudança, uma mudança radical que ainda está em andamento." 

O filho. O jardim da casa de Juan Carlos é coberto de parreiras verdes. Dez anos atrás ele tocava um pequeno restaurante, um paladar, sob a folhagem. Também alugava quartos para turistas, até entrar num novo negócio no qual usa seu novo passaporte espanhol para viajar ao Panamá e comprar roupas e outras coisas que revende em Havana. 

Juan Carlos é membro do que se pode chamar de geração "resolver" - a que aprendeu a negociar e solucionar os problemas causados pela escassez, regulamentações e ineficiência do socialismo cubano. Se a imagem que o pai tem de Fidel e da revolução foi moldada pelas mudanças dos anos 50 ou 60, a visão de Juan Carlos é produto da transição da relativa abundância dos anos 80 para a penúria dos 90. 

Foi uma mudança significativa. Com o colapso da União Soviética, Cuba perdeu um patrocinador que lhe garantia US$ 4 bilhões anuais em créditos e subsídios. A economia encolheu 34% entre 1990 e 1993, levando a uma escassez crônica de combustível, sabão, comida, quase tudo.

Funcionários cubanos reconhecem que em 1990 o país entrou num "período especial. A implicação disso foi que Cuba teve de abrir algumas exceções em suas normas. Em 1993, Fidel legalizou o dólar americano e permitiu que cubanos abrissem pequenos negócios em dezenas de áreas, especialmente na prestação de serviços a turistas. Especialistas ainda debatem em que grau Cuba adotou o capitalismo nesse período. Juan Carlos foi um dos que se beneficiaram da abertura. 

Na época ele tinha 31 anos e já estava frustrado com o funcionamento do governo. Aos 20 ele trabalhara na alfândega cubana, mesmo trabalho do pai depois que ele saiu da polícia. Segundo Juan Carlos, o sistema alfandegário era antidemocrático e valorizava mais o silêncio que a iniciativa. 

Sua frustração chegou ao auge no fim dos anos 80, quando foi impedido por funcionários do Partido Comunista de reunir ideias dos colegas visando a melhorar o funcionamento do setor. Ele acreditava estar fazendo o que o socialismo reverencia: organizar os trabalhadores. "Mas os caras do partido simplesmente disseram 'você não pode se levantar e começar a falar'." 

Ele saiu do emprego pouco antes do colapso da URSS. Nos anos seguintes, trabalhou em hotéis. Quando Fidel legalizou os pequenos restaurantes, Juan Carlos decidiu abrir um com a mulher, mas havia um problema: precisava da permissão do núcleo local do Comitê de Defesa da Revolução, o órgão fiscalizador do partido, e havia anos que esse núcleo não se reunia. Assim, Juan Carlos candidatou-se à chefia do grupo e pediu apoio aos vizinhos à candidatura. "Fui eleito presidente e pude abrir o restaurante", diz.

O governo de Fidel, porém, nunca foi muito longe na iniciativa de privatização. Nos anos 90 houve uma relativa abertura econômica, que perdeu regularidade quando Fidel e seu irmão Raúl, que assumiu poderes presidenciais em 2006, limitaram as mudanças. Os negócios têm de permanecer pequenos por força das leis que restringem o número de empregados permitidos. Suprimentos têm de ser comprados do governo. Quebras de negócios são comuns. 

Mesmo com as relações com os EUA tendo melhorado, a vida econômica da ilha continua dependente da lealdade ao controle central do país. "É como uma sanfona, abre um pouco e fecha, sem nunca abrir de uma vez", diz Juan Carlos.

O sucesso tem seus favoritos. A desigualdade econômica e racial, após melhorar nos primeiros anos da revolução, piorou desde os anos 90. Os cubanos que tocam pequenos negócios e têm empregos mais bem pagos no turismo são quase todos brancos. Alguns têm parentes em Miami. Outros têm conexões no governo, ou, no caso de Juan Carlos, ancestrais espanhóis e uma casa em Vedado com espaço extra. 

Ele reconhece que vem se saindo relativamente bem, mas com trabalho duro. Durante a visita, pôs um videocassete mostrando a festa de 15 anos da filha, Rocío, no Hotel Nacional. A garota usava vestido longo e agradecia aos pais enquanto os convidados bebiam e dançavam. Parecia uma festa de formatura. Mas para Juan Carlos, e especialmente para a filha, uma noite de alegria está longe de significar satisfação. 

A neta. Rocío sonha em se tornar historiadora de arte. Alta e esbelta, ela descreve Cuba com a sofisticação sutil que emerge de uma boa educação e muito tempo para analisar as coisas detalhadamente.  A seus olhos, Cuba é um purgatório e Fidel, mesmo antes de sua morte, era um espectro do passado, mais estudado nos livros escolares que visto.

No entanto, afirma que "Fidel tinha uma grande visão". E, claro, há muitas coisas que ela ama nessa Cuba fidelista: a alegre liberdade das ruas; um país onde não há crimes e raramente teve problemas com narcotráfico; a ênfase na educação e cultura. Rocío diz temer que a violência volte ao país após o desaparecimento de Fidel e Raúl.

Mas, quando passou da adolescência para a idade adulta, o que queria mesmo era deixar o país. Sua irmã mais velha vive na Espanha. A melhor amiga foi para a Miami em férias e lá ficou. Muitas amigas de Rocío esperam sair de Cuba o mais breve possível. "Minha geração não está preocupada com política ou ideais. O que queremos é ir embora. No exterior você pode conseguir muito mais. Pode ser reconhecido internacionalmente por seu trabalho."

A era dos discursos de Fidel, a ideologia e os impasses da Guerra Fria não são o que os jovens cubanos ambiciosos de hoje querem. Como muitos de sua geração, o que Rocío deseja é ver Cuba sair do atraso. Por que a internet não é aberta e acessível? Por que ela não pode entrar no Facebook e dizer alô para a irmã em Barcelona? Por que é tão difícil visitar o Louvre, pessoal ou virtualmente? "Acho que todo mundo tem direito à informação. para poder pensar e estudar."

Rocío diz que o embargo comercial americano realmente não ajudou, mas para muitos jovens o governo é o responsável por criar uma sociedade com limitações. "Fidel e Raúl começaram com uma boa ideia, mas não chegaram onde disseram que chegariam."

Ela quer a mesma coisa que seu avô e Fidel queriam quando jovens: mudanças radicais e oportunidades para levar a vida como desejar. As mudanças dos últimos anos sob o governo de Raúl Castro, permitindo mais atividade privada e viagens, deram alguma esperança, "mas as coisas não estão mudando no ritmo que deveriam". / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ E TEREZINHA MARTINO

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