EFE/ Ludovic Marin
EFE/ Ludovic Marin

Gilles Lapouge: Macron e a Igreja

Após reunião com bispos, presidente francês foi tachado de padreco por opositor

O Estado de S.Paulo

11 Abril 2018 | 05h00

Emmanuel Macron, decididamente, não foge dos desafios. Pode-se dizer que ele sente até um certo prazer doentio em flertar com o abismo. É o que está fazendo hoje. Com sua política sendo duramente contestada por ferroviários, aposentados, agricultores e estudantes, o presidente da França, em lugar de apagar os incêndios já existentes, provoca outros, como se assim sufocasse os primeiros.

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Seu último incêndio envolve a religião. Uma das poucas coisas que o francês comum sabe de história é que a França, após violentos conflitos religiosos, tornou-se um país laico em 1905, um país em que a religião não interfere nas decisões de Estado. Mas eis que vem Macron e convida os bispos franceses a discutir... as ligações entre a Igreja e o Estado. 

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Ele não economizou palavras. A seus olhos, as relações entre a Igreja Católica e o Estado francês estão debilitadas, paralisadas. Segundo ele, Igreja e Estado, embora estejam em órbitas diferentes, “são vozes legítimas em questões de interesse público, aos quais a Igreja empresta sua visão humanística”. Como bom estudante que foi, Macron especificou: “É a França católica que, apesar de tudo, insere no horizonte secular a difícil questão da salvação, que cada um, acreditando ou não, interpreta a sua maneira”. 

Para um americano, um brasileiro, um italiano, tais palavras não contêm o menor indício de subversão ou provocação. Mas a França é a França, laica de ponta a ponta. Outrora conhecida como “a filha mais velha da Igreja”, ela aboliu pela lei de 1905 qualquer conivência entre a Igreja e o Estado. Com o correr dos anos, essa lei se integrou de tal modo à mentalidade dos franceses que, em alguns meios, aceitar que a religião se insinue, mesmo discretamente, nos domínios do Estado soa como pecado, quase crime. 

Macron atacou uma das vacas sagradas da França, o princípio do laicismo, que estabeleceu uma barreira absoluta. Foi um grave erro.

As reações mais virulentas vieram dos partidos políticos extremistas. Jean-Luc Mélenchon, do movimento França Insubmissa, trovejou: “Macron está em pleno delírio metafísico. Esperávamos ouvir um presidente, ouvimos um padreco”.

Outro deputado da França Insubmissa, Alexis Corbières, acrescentou: “Foi uma fala indigna de um presidente”. De sua parte, Olivier Faure, o novo chefe socialista (encarregado de reconstruir o partido após o desastre dos anos de François Hollande), declarou: “O laicismo é um tesouro nosso. Um presidente deveria defendê-lo”.

O mesmo Faure assinalou que, dos ensinamentos da Igreja, Macron usa apenas os que lhe convêm. “Sobre os migrantes, por exemplo, no mesmo dia em que o papa Francisco denunciava, com razão, o egoísmo europeu frente à chegada dos ‘infelizes da história’, Macron se calava.”

A intrusão de Macron nesse terreno delicado, bem como as reações inflamadas que seu discurso provocou, levam a outra reflexão: o princípio do laicismo pode estar se esgotando. A lei de 1905 foi boa, mas os desafios hoje são cada vez mais complexos. 

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Por exemplo: na regulamentação do suicídio assistido não seria fundamental ouvir a palavra religiosa? Sim, é preciso levar-se em conta os avanços vertiginosos da bioética e das questões sociais e políticas, mas sem ignorar os efeitos metafísicos que essa bioética levanta. É óbvio que os sábios, os médicos, os governantes devem participar dessas discussões. Mas alguém ousaria excluir delas os grandes responsáveis religiosos, não apenas católicos, mas de todas as espiritualidades: islâmicos, budistas e mesmo ateus? / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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