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Internacional

Nicolás Maduro

Governo venezuelano promete superar crise sem prejuízo social

Vice-presidente executivo, Aristóbulo Istúriz faz série de reuniões com empresários para encontrar uma saída 'que não seja a neoliberal' para um dos piores momentos da história do país

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O Estado de S. Paulo

19 Janeiro 2016 | 10h37

CARACAS - O governo da Venezuela começou na segunda-feira a estabelecer os fundamentos de um plano para atender à emergência econômica do país, com iniciativas para superar a difícil situação sem causar prejuízos sociais, frente às quais pediu a confiança do setor privado. 

Depois que o plano de recuperação econômica de 2015 elaborado pelo presidente Nicolás Maduro para lidar com a crise não apresentou resultados e a economia registrou recessão pelo segundo ano consecutivo, seu governo se prepara para atenuar a crise com uma "agenda econômica bolivariana".

O vice-presidente executivo, Aristóbulo Istúriz, afirmou que o governo evitará uma saída "neoliberal" para a difícil situação econômica e garantiu que o Executivo está seguro das ações que tomará para recuperar a economia nacional, que mostrou o pior desempenho do continente sul-americano.

"Estamos obrigados a construir um modelo produtivo que nos permita gerar riqueza e, ao mesmo tempo, manter e aprofundar as conquistas do povo", disse o político para um grupo de empresários.

Istúriz e vários integrantes do Executivo começaram uma rodada de reuniões e encontros com empresários de todo o país para oferecerem detalhes da agenda e pedirem a confiança do setor privado nesta nova empreitada.

"Temos que buscar uma saída que não seja a neoliberal", ressaltou o vice-presidente, que também preside o Conselho Nacional de Economia, criado para lidar com a crise no país, que terminou o ano de 2015 com uma inflação de três dígitos.

Após o decreto do estado de emergência econômica na sexta-feira, "a ideia é que não estejamos estudando tanto as coisas, porque já há muitos estudos, muitos diagnósticos. Agora é hora de apresentar o exame", afirmou Istúriz.

A economia da Venezuela, que é extremamente dependente das exportações de petróleo - até 96% das divisas do país vem da venda da commodity -, está profundamente afetada pela queda dos preços internacionais, o que, segundo Istúriz, levou o país a perder 70% de sua receita.

Em 2015, a recessão se aprofundou pelo segundo ano consecutivo com a retração do Produto Interno Bruto (PIB) durante os três primeiros trimestres do ano, com queda de 1,4% no primeiro, 4,7% no segundo e 7,1% no terceiro.

De acordo com os números oficiais divulgados na sexta-feira, a inflação dos primeiros nove meses de 2015 foi de 108,7% (acumulada) e a variação em estimativa anualizada no fechamento do terceiro trimestre daquele ano ficou em 141,5%.

Esses são os piores números de inflação registrados na história do país, que viveu uma de suas piores crises em 1996, com uma inflação de 103%, e outra em 1989, com 84,5%.

As medidas aplicadas para atenuar as crises passadas foram as que motivaram revoltas populares e "isso é o que devemos evitar", disse Istúriz ao grupo de empresários.

O Conselho Nacional de Economia, explicou o vice-presidente, é uma instância criada para buscar e aplicar as soluções e tem como objetivos fazer um plano produtivo, elevar a captação de divisas e diversificar as fontes, além de regular o sistema de produção e distribuição de produtos de primeira necessidade.

Além disso, o órgão propõe como meta otimizar a coleta de impostos e agilizar os processos dos bancos. O conselho, que é formado por ministros, empresários, e líderes locais, será instalado nesta terça-feira, 19, e terá sua agenda de trabalho detalhada por Maduro.

As ações que o Executivo planeja estão embasadas no decreto de emergência econômica que foi oficializado na sexta-feira e que ainda está à espera de aprovação na Assembleia Nacional, que é controlada pela oposição.

O Parlamento não incluiu a discussão do decreto na agenda desta terça e os opositores não deixaram claro qual é sua posição diante do mesmo, que, se for rejeitado, vai fazer o plano de Maduro naufragar.

O governador do Estado de Miranda e ex-candidato presidencial da oposição, Henrique Capriles, criticou o decreto de emergência econômica argumentando que sua aprovação significa "dar mais poder aos responsáveis pela crise".

O governador considera que o debate no Legislativo sobre o decreto deveria contar com a presença dos ministros para que os mesmos expliquem onde foram investidos os recursos do país, que tem as maiores reservas comprovadas de petróleo no mundo.

Especialistas. Para alguns dos principais analistas políticos da Venezuela, o plano anunciado por maduro é uma tentativa de estender para a oposição o custo político da crise, cuja solução não estaria nas medidas do decreto.

"O decreto de emergência é uma armadilha do governo Nicolás Maduro para compartilhar os custos políticos com a oposição e tomar algumas medidas (impopulares) como aumentar o preço da gasolina", afirmou o economista e professor universitário Luis Oliveros.

Entre os economistas, também existe a preocupação de que o governo chavista possa acentuar seu modelo centralizador, apesar dos indicadores preocupantes: déficit publico ode quase 20% do PIB, escassez superior a 2/3 dos produtos básicos, inflação anualizada de 141,5% (até setembro de 2015) e a necessidade de pagar quase US$ 11 bilhões da dívida em 2016.

O conglomerado financeiro Barclays declarou recentemente que "o novo gabinete venezuelano parece não ter percebido a urgência de abortar a crise, já que mantém a postura radical" diante da economia de mercado e dos capitais privados. A nomeação para ministro de Economia do sociólogo Luis Salas, que defende a teoria da guerra econômica, ilustra a postura que domina o Executivo da Venezuela, aponta a Barclays.

Oliveros calcula que o rombo no orçamento, em divisas entrangeiras, chegue a quase US$ 28 bilhões em 2016, com o preço do petróleo a cerca de US$ 30 por barril. "A Venezuela precisa que o óleo seja vendido a US$ 80 para equilibrar seu fluxo de caixa", diz o especialista.

O economista Orlando Ochoa alerta que o "baixo nível de reservas internacionais (atualmente em cerca de US$ 15,5 bilhões) tem alarmado o Executivo".

Se o barril for vendido a US$ 30 - atualmente, o preço da commodity venezuelana está um pouco abaixo deste patamar - a Venezuela receberá no primeiro trimestre apenas US$ 6 bilhões, "o que não é suficiente para importar alimentos e remédios e ainda pagar a dívida e honrar seus compromissos com a China", diz Ochoa.

"Para o segundo semestre de 2016 será impossível abastecer o país e honrar as dívidas com esse mesmo modelo político e econômico e o decreto de emergência econômica não dá ideia de um plano macroeconômico para estabilizar a economia e ganhar tempo e confiança com os mercados", completou Ochoa. / EFE e AFP

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