AP/Christophe Ena
AP/Christophe Ena

Grande Macron

Líder francês obteve acordo na Líbia e seduziu os líderes internacionais ‘no atacado’

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2017 | 05h00

O presidente Emmanuel Macron reuniu na França os dois “inimigos” da Líbia. De um lado, Fayez Sarraj, que, instalado na capital Trípoli, é a única autoridade política reconhecida pela comunidade internacional, mas não dispõe de Forças Armadas. De outro, o marechal Khalifa Hafter, que controla Bengazhi e domina militarmente o leste do país, além da região de Sirte, onde se encontram as reservas de petróleo.

Foi uma boa ideia de Macron. Em primeiro lugar, porque, se no plano nacional seus rumos são incertos e titubeantes, nos assuntos diplomáticos ele se revelou brilhante, seduzindo todos os líderes internacionais “no atacado”.

Em segundo lugar, a Líbia é uma ferida abert,a tanto para a África quanto para a Europa, desde que, em 2011, o então presidente francês, Nicolas Sarkozy, teve a péssima ideia de levar o Ocidente à guerra na Líbia – matando, no meio do processo Muamar Kadafi, déspota que era odioso, mas pelo menos mantinha a ordem e a paz nessa região explosiva do Norte da África.

Despojada de seu líder, a Líbia se partiu em pedaços, tribos, clãs, facções, bandidos, traficantes e jihadistas. Desde então, o caos é total. Destituídos de tudo, extorquidos por todos, líbios miseráveis e famintos ficam à mercê de “atravessadores” que os fazem cruzar o Mediterrâneo em barcos caindo aos pedaços. Naufragam à vista da costa italiana. Os que sobrevivem, repelidos em todas as fronteiras, rondam uma Europa a cada dia mais trancafiada.

A ideia de Macron foi, portanto, muito boa – ousada e generosa. E seu charme funcionou. Já seria uma façanha reunir em torno da mesma mesa dois homens que disputam até a morte o mesmo troféu – os restos da Líbia. Segunda proeza: os inimigos não só apertaram as mãos, como também concordaram em fazer uma declaração conjunta, com dez pontos, sugerindo um “cessar-fogo” e a realização de eleições legislativas e presidenciais em menos de um ano. “Super-Macron!”

Então, ele conseguiu que os dois inimigos assinassem essa declaração? Não é bem assim. Não podemos exagerar. Eles não “assinaram” a declaração. Eles a “aprovaram”.

Ainda assim, trata-se de um bom resultado, mesmo que frágil. Primeiro perigo: até agora, Sarraj, o premiê de Trípoli, só resistiu ao poderoso marechal Haftar graças a sua legitimidade política, reconhecida pela ONU. Hoje, porém, Haftar também recebe uma “unção política”. Não se sentirá tentado a instalar seu poder em Trípoli e assumir o controle da Líbia? Tal cenário não agradaria a todos, uma vez que, para muitos líbios, Haftar significa um retorno ao detestável regime de Kadafi.

Mas há um outro perigo, talvez ainda maior. Os dois homens que se encontraram por intermédio de Macron não são os únicos líderes da Líbia: depois do desastre da guerra de 2012 e da morte de Kadafi, uma miríade de pequenos chefes se insurgiu, sem a menor vontade de abrir mão de seu querido “caos”, graças ao qual eles podem continuar roendo tranquilamente os restos da antiga prosperidade da Líbia.

Apesar da declaração feita na França, eles certamente vão seguir com seus pequenos negócios, saques e vendas militares, isso para não falar de todos os “atravessadores” que estão fazendo fortuna na migração desesperada para a Europa.

E a Itália? Ela está irritada. Por que é que Macron tem de meter no nariz na Líbia, ex-colônia de Roma? O chanceler italiano, Angelino Alfano, lamentou a multiplicação de “mediadores” autoproclamados. Macron negou qualquer problema com a Itália. Afinal, ela faz parte da União Europeia, cujos integrantes se adoram. Será? / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

 

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