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Grandes vítimas do conflito, indígenas apoiam presidente

Denise Chrispim Marin - O Estado de S. Paulo

15 Junho 2014 | 02h 01

Pelo menos 30 mil membros de comunidades nativas vivem em Bogotá após ser expulsos de suas terras

BOGOTÁ - Vítimas mais frequentes e vulneráveis do conflito entre as Forças Armadas e as guerrilhas, as organizações indígenas de Bogotá deram na sexta-feira seu apoio a Juan Manuel dos Santos com esperança de avanço no processo de paz.

Representantes indígenas formularam um documento para ser entregue ao presidente no qual pediriam conversas com os titulares dos ministérios da Educação, Saúde, Moradia, Cultura e Justiça e com as secretarias municipais das mesmas áreas. Mas não conseguiram.

Segundo Luís Enrique Tapiero, da etnia pijao e líder dos ambikas em Bogotá, do total de 30 mil indígenas que vivem na capital colombiana, 50% foram expulsos de suas regiões tradicionais pela violência das guerrilhas, do paramilitares e das Forças Armadas.

"Não estamos de acordo com o governo de Santos, com exceção de um ponto: a paz. Somos os que mais sofremos com essa guerra", afirmou.

Tapiero deixou em 1986 sua terra natal, Coyaima, no Departamento de Tohima, para morar com parentes em Bogotá.

Tinha 16 anos e sua família já havia sofrido pressões para que aderisse às Farc. Um de seus 11 irmãos e seu pai foram assinados pela guerrilha, e a casa onde nascera foi incendiada como represália pela falta de colaboração da família.

Hoje, sua mãe também é uma das refugiadas em Bogotá. Na capital, ele fez curso técnico de desenho arquitetônico e atualmente estuda Direito, com atenção para a defesa dos direitos indígenas.

Israel Montano, de 41 anos, chegou há apenas três anos de uma "zona vermelha" do Departamento de Cauca, a de maior conflito. Sua decisão foi parecida à dos pais de Tapieri: queria evitar o recrutamento de seus dois filhos.

Hoje, trabalha na construção civil. O mesmo caminho foi seguido por Hector Tapye, cansado de viver entre os ataques de paramilitares, guerrilheiros e soldados. Ele saiu da região de Nariño, no Departamento de Cauca, e lidera na capital a etnia dos pastos.

"Aqui a vida é difícil porque temos de pagar por tudo o que recebíamos gratuitamente da natureza", afirmou Montano, que luta por cotas nas universidades para estudantes indígenas, como sua filha.

"É horrível viver aqui", resume Paulina Majín, de 46 anos, líder do povo yanacona em Bogotá. Ela migrou com seu filho em 1986 de Río Blanco para Cauca, depois do assassinato de dois primos que contrariavam as orientações das Farc e do Exército de Libertação Nacional (ELN) de aumentar a produção de papoulas.

Há quatro anos, vive em Bogotá. Na capital colombiana, bate de porta em porta das 170 famílias yanacona para prover alimentos e assistência. "Na minha região natal, que é o berço de quatro rios da Colômbia, a natureza foi brutalmente destruída pelas lavouras de papoula e coca e pelas fumigações. A terra não produz mais nada. Não posso mais voltar."

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