AFP PHOTO / Mohamed al-Bakour
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Guerra na Síria já registrou 25 ataques químicos, apontam investigações

Pelo menos 14 ações teriam sido de autoria do governo de Bashar Assad

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2017 | 16h15

GENEBRA - Em seis anos da guerra na Síria, investigações independentes da ONU já confirmaram que armas químicas foram usadas em pelo menos 25 ocasiões, além do caso registrado na semana passada que deixou mais de 80 mortos. Do total de incidentes, pelo menos 14 foram de autoria do regime de Bashar Assad. Os dados fazem parte dos informes da Comissão de Inquérito da ONU para a Síria, que, com detalhes sobre cada um dos casos, espera construir processos de crimes contra a humanidade e crimes de guerra contra os responsáveis. 

No sábado 8, o Estado revelou com exclusividade que, mesmo depois de um compromisso internacional para não usar armas proibidas, em 2013, o governo de Assad despejou sobre sua população produtos químicos em pelo menos três ocasiões desde 2014. As informações faziam parte de documentos confidenciais da Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq). 

Sua cúpula, na condição de anonimato, confirmou ao Estado que está repatriando da Síria novas amostras para definir as circunstâncias dos ataques desta semana e, nos próximos dias, espera determinar que tipo de substância e de que forma foram usadas contra a população. Damasco e Kremlin têm declarado que Assad não tem estoques e não recorre a armas proibidas, enquanto o governo do presidente russo, Vladimir Putin, aponta que o Ocidente iria usar casos “falsos” de ataques químicos para tentar derrubar Assad. 

Contudo, novos documentos de equipes técnicas das Nações Unidas mostram que as investigações já concluíram o uso das armas proibidas em diversos outros casos. Além do último incidente, que causou uma reação por parte dos EUA, a Comissão da ONU já identificou outros dois incidentes perpetrados pelo governo de Assad apenas em 2017. 

Um deles ocorreu no dia 8 de janeiro, quando cloro atingiu seis civis em Bseema, perto de Damasco. No dia 30 de janeiro, uma explosão também com cloro atingiu mais 30 pessoas, em Sultan Al Marj. Em ambos os casos, o governo foi apontado como responsável.

Em 2016, foram outros sete casos. Desses, em apenas um deles o autor não pode ser identificado. No restante dos incidentes, as investigações apontam todas para as forças de Assad. No dia 6 de setembro, uma das bombas matou um adolescente de 13 anos e feriu 80 civis. 

No dia 1.º de agosto, um helicóptero despejou uma bomba com cloro numa área residencial de Idlib, deixando 28 feridos. Em 2014, foram outros seis casos registrados em diversas províncias do país. Todos teriam sido de responsabilidade do governo de Damasco. 

Terrorismo. Se a investigação provou que Assad usa armas proibidas, o trabalho da Opaq, que ocorre em paralelo ao da ONU, também descobriu que o grupo jihadista Estado Islâmico (EI) foi o responsável por pelo menos uma ocasião. De acordo com a investigação, no dia 21 de agosto de 2015 em Marea, os extremistas usaram sulfato de mostarda e, para garantir um impacto maior, colocaram o produto químico em "diversas unidades de artilharia". 

O que os documentos ainda revelam é que essa não é a primeira vez que Assad usa a justificativa de um incidente com armas químicas ocorrido em razão de uma bomba tradicional que teria caído em um armazem de rebeldes. Damasco, no caso desta semana, usa justamente essa explicação. 

"O governo nos informou que grupos terroristas tinham a posse e transportavam produtos químicos, incluindo cloro, como armas", indicou o relatório. "O governo também informou que suas Forças Armadas, em alguns casos, têm atacado locais onde esses grupos armazenam químicos", justificou. 

Veja: Ataque químico deixa 58 mortos na Síria

Os investigadores contam, então, que solicitaram ao governo esclarecimentos, como o local de posse, transporte ou armazenamento desse material pelos terroristas. "O governo não nos passou qualquer tipo de informação, alegando preocupações com a segurança nacional", afirmou.

Ao responder aos investigadores, o governo de Assad ainda explicou que "o Exército apenas usa armas convencionais”. O grupo de especialistas, então, pediu para encontrar com os comandantes das bases citadas, mas as reuniões jamais foram organizadas. 

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