Guerra no Alto Karabakh

A guerra do Alto Karabakh, na ponta do Cáucaso, reivindicado pela Armênia e pelo Azerbaijão, estava adormecida havia 22 anos, desde 1994. Na semana passada, na noite do dia 1.º, despertou de repente, e voltou a adormecer quatro dias mais tarde, depois de um cessar-fogo. Mas ela dorme só com um olho. Como as grandes potências. Moscou, a mais interessada, vigia o Alto Karabakh como se vigiasse “leite no fogo”.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2016 | 03h00

O que é o Alto Karabakh? Como acontece em todo o Cáucaso, os problemas estão tão entrelaçados que é preciso consultar o atlas para avaliar os perigos que esta “guerra relâmpago” oculta em suas sombras. Uma faísca será suficiente para reacender o incêndio. 

No sul do Cáucaso, há dois territórios que faziam parte da URSS: Armênia e Azerbaijão. A URSS anexou a região ao Azerbaijão, quando, por sua história e seu povo, o Alto Karabakh era armênio. Após o colapso da URSS, os recortes feitos por Moscou permaneceram. Mas o Alto Karabakh, libertado da mão de ferro dos soviéticos, reclamou sua independência com o apoio da Armênia.

Resultado, os azerbaijanos se enfureceram, e, em 1991, eclodiu a guerra. Em 1994, o Alto Karabakh se tornou independente de facto, não de direito. A paz voltou, mas uma paz precária, porque Baku, capital do Azerbaijão, jamais aceitou a perda de Karabakh. Três países supervisionam o acordo de 1994: EUA, França e Rússia.

Foi esta construção frágil de 1994 que os azerbaijanos quiseram demolir, no dia 1.º, lançando na região tanques e helicópteros. Uma guerra modesta, em escala reduzida mesmo, neste país austero, feito de montanhas selvagens e belas. Resultado, 31 morreram do lado azeri e 32 do lado do Alto Karabakh.

Além disso, os azerbaijanos tomaram uma parte do território cobiçado. Conquistaram duas colinas, uma das quais, aliás, foi logo retomada num contra-ataque fulminante do Alto Karabakh.

Em suma, mesmo que lamentemos os mais de 60 mortos, este conflito não foi de envergadura mundial. Ele se assemelha mais aos combates do país de Lilliput imaginados por Jonathan Swift, no século XVIII, no livro As viagens de Gulliver. Tanto barulho para conquistar uma colina! No entanto, esta guerra raquítica mobilizou imediatamente todas as chancelarias. Os russos despacharam para Baku dois pesos pesados, o ministro do Exterior Serguei Lavrov, e o primeiro-ministro Medvedev. 

Para que tanta agitação? Ocorre que a região é um paiol de pólvora. Os caucasianos são povos de sangue quente e de guerreiros terríveis. Montanhoso, escarpado e esplêndido, o Cáucaso é compartilhado por vários pequenos Estados que adoram se encolerizar: a Geórgia, o Daguestão russo, a Ossétia, etc. No Sul, estão o Irã e a Turquia. A Turquia merece um esclarecimento. Este país é amigo íntimo do Azerbaijão: “Um só povo”, dizem em Ancara, “dois países”. Ancara declarou que apoia “o Azerbaijão até o fim”.

E depois a Rússia. Moscou olha para o Cáucaso com muito carinho (ninguém e esquece da Geórgia). Sabemos que um dos grandes desejos de Putin é recompor, pelo menos em parte, o antigo império soviético. E não devemos duvidar de que, na primeira ocasião, o Kremlin poderá agarrar um país e pô-lo no bolso. Foi assim que Putin engoliu a Crimeia sob o olhar consternados do Ocidente.

Moscou pretendia utilizar o incêndio em Karabakh para movimentar seus peões na direção da Armênia, que é um país independente, é claro, mas muito próximo dos russos, e adere à Organização do Tratado de Segurança Coletiva, uma espécie de Otan russa que reúne Bielo-Rússia, Casaquistão, Armênia, etc.

Entretanto, nada disso aconteceu. Ao contrário, Moscou apagou o incêndio. Seus diplomatas pressionaram os dois inimigos, azerbaijanos e armênios, com sucesso, e a calma voltou a reinar. A prudência russa é compreensível. A região preocupa. Ela explode por qualquer motivo. Além disso, Moscou vende quantidades colossais de armas tanto a Erivan quanto a Baku. E os interesses petrolíferos da Rússia estão ligados ao Azerbaijão. Portanto, embora a Rússia esteja fraternalmente ligada à Armênia, não se mostra menos benevolente com o Azerbaijão. Apesar de tudo, o Ocidente está sempre em alerta com Putin. Este sujeito é um demônio. Está sempre dois ou três passos à frente. Há dois anos, o Ocidente o observa espantado. Ele tem uma imaginação fabulosa. Avança em surdina, semeando a cada passo suas armadilhas ininteligíveis, que explodem debaixo do nariz de Washington, Paris, e Berlim.

Putin é um homem de fundo falso. Está sempre onde não está. Ele desaparece, e nós respiramos, mas logo está de volta com um novo truque sujo. É por isso que, contra toda a lógica, alguns se perguntam se nesta guerra bizarra do Alto Karabakh não estaria o dedo de Putin. E se ele se servisse dela para humilhar a Turquia, aliada do Azerbaijão, a Turquia que Putin detesta mortalmente desde que um avião russo foi abatido pelos caças turcos?

Hipótese absurda, e na minha opinião não se sustenta. Mas é privilégio dos demônios inflamar por vezes até o delírio a imaginação confusa dos seus adversários./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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