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‘Há grande risco de terroristas obterem material atômico’

Para candidato à diretoria-geral da AIEA, 85% do urânio e do plutônio está nas mãos de grupo de países, e é difícil garantir seu controle

Entrevista com

Rafael Grossi

Cláudia Trevisan - CORRESPONDENTE /WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

01 Abril 2016 | 05h00

O mundo enfrenta um “risco considerável” de terroristas terem acesso a arsenal e materiais nucleares, na avaliação do diplomata argentino Rafael Grossi, forte candidato à diretoria-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Segundo Grossi, a Cúpula de Segurança Nuclear chegou ao limite do que poderia realizar para conter essa ameaça. Para avançar mais, seria necessário abordar os programas nucleares desenvolvidos por diferentes nações, onde estão 83% do urânio enriquecido e do plutônio existentes no mundo. “Isso está fora do alcance da cúpula”, disse Grossi. 

A eleição para o comando da AIEA será realizada dentro de um ano, mas ele já busca apoios. Se eleito, o argentino será o primeiro latino-americano a comandar a organização. O Brasil ainda não se manifestou, mas Grossi espera ter o voto do País. “Eu não posso conceber uma candidatura argentina que não tenha o apoio do Brasil. Não me sentiria representativo, sobretudo no mundo nuclear”, disse ao Estado. A seguir, trechos da entrevista:

Qual é o foco da cúpula?

Esta é a última de uma série de cúpulas, a primeira ocorreu em Washington, em 2010. Elas foram importantes para dar relevância política, com o envolvimento dos chefes de Estado, à proteção do material nuclear contra o terrorismo. Nós que não estamos falando de armas, mas sim do urânio enriquecido, que é muito perigoso, está nos reatores de pesquisa, e das fontes radioativas em hospitais. Como brasileira, você se lembra do acidente em Goiânia (contaminação radioativa provocada por césio 137, em 1987). Isso ocorreu de maneira acidental, mas poderia ter sido intencional. Para um terrorista, esse material é valioso, pois pode provocar terror e pânico. 

Os críticos da cúpula afirmam que ela não foi suficientemente agressiva na redução da quantidade de material nuclear no mundo. Essa crítica é legítima?

É uma observação legítima, mas é necessário sofisticar a análise. As cúpulas são um pouco vítimas de seus próprios êxitos. Tudo o que podia ser feito, foi mais ou menos feito. Agora deve-se entrar em terrenos mais sensíveis: 83% do urânio altamente enriquecido e do plutônio existentes no mundo integram programas militares. Isso está fora do alcance da cúpula e está concentrado em um pequeno grupo de países. 

Qual é a segurança desse material? 

Alguns dirão que nos EUA, na França, na própria Rússia, os arsenais nucleares estão seguros. Mas há outros países que têm armas nucleares: Paquistão, Índia, Coreia do Norte. As cúpulas tocaram a fronteira do possível. Para ir além, é necessária vontade política difícil de imaginar, porque tem relação com arsenais nucleares de países que não querem abordar esse tema.

E qual o grau de segurança no Paquistão, na Índia e Coreia do Norte?

É muito difícil dizer. Mesmo em países como este (EUA) houve acidentes. Imagina a inquietação que há em relação a outros países. Os especialistas militares do Paquistão dizem que não há o que temer. Mas há inquietação. Vivemos em um mundo que tem um risco considerável nesse aspecto.

O terrorismo existia antes. O que mudou para dar relevo a essa preocupação?

A partir da década de 90, houve a globalização do terrorismo e a radicalização do terrorismo internacional. Houve o caso da seita que utilizou gás sarin no metrô de Tóquio, em 1995. Isso mostrou que os terroristas viram o potencial de usar pelo menos elementos vinculados às armas de destruição (em massa).

O sr. é candidato à direção-geral da AIEA, que terá sua eleição dentro de um ano. Quais são os desafios da agência?

Os grandes desafios da próxima década estão relacionadas à segurança nuclear. Em inglês há duas palavras para isso: safety e security. Security é a segurança física do material nuclear. A outra, safety, é a segurança tecnológica, é a que tem a ver com Fukushima, com as centrais nucleares. É claro que a agência sempre vai atuar na frente em que é mais conhecida, que é a fiscalização, a inspeção das instalações nucleares. Essa atividade concentra a maior parte do orçamento da agência (da ONU) e é historicamente o seu papel indispensável. 

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