EFE/Sergei Chirikov
EFE/Sergei Chirikov

EUA se afastam da Rússia e elogiam China

Trump diz que laços com Moscou talvez estejam no patamar mais baixo por divergências sobre Síria e houve ‘química boa’ com líder chinês

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2017 | 16h37
Atualizado 12 Abril 2017 | 23h52

Donald Trump disse nesta quarta-feira que o relacionamento dos EUA com a Rússia “talvez” esteja no seu mais baixo patamar da história, enquanto Vladimir Putin afirmou que a confiança entre os dois países se deteriorou desde a posse do republicano, em janeiro. O presidente americano também atacou o aliado de Moscou na Síria, Bashar Assad, a quem se referiu como “animal” e “açougueiro”.

No dia em que as divergências entre Washington e Moscou ficaram mais uma vez expostas, Trump celebrou avanços em seu relacionamento com a China, um dos principais alvos de sua campanha eleitoral. Em entrevista ao Wall Street Journal, o presidente anunciou que não acusará formalmente Pequim de manipular sua moeda. Em troca, espera colaboração para conter o programa nuclear da Coreia do Norte.

 

A nova dinâmica entre as três nações ficou evidente na votação de uma proposta de resolução do Conselho de Segurança da ONU que condenava o ataque com armas químicas ocorrido na Síria na semana passada. A Rússia vetou o texto, repetindo a posição adotada em relação a seis resoluções sobre a Síria apresentadas desde o início da guerra civil no país, em 2011. Pela primeira vez, a China deixou de acompanhar Moscou e se absteve.

“É maravilhoso que eles tenham se abstido”, afirmou Trump em entrevista coletiva ao lado do secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Jens Stoltenberg. O presidente disse que a China já endureceu sua posição em relação à Coreia do Norte e mencionou a decisão de Pequim de devolver ao país vizinho navios carregados de carvão. “Tivemos uma ligação muito boa, uma química muito boa juntos”, disse Trump, em referência ao presidente Xi Jinping.

Durante a campanha, o republicano questionou a utilidade da Otan e colocou em dúvida o compromisso dos EUA de defender aliados europeus diante de um eventual ataque da Rússia. Nesta quarta-feira, ele voltou atrás: “Eu disse que (a Otan) era obsoleta. Não é mais obsoleta”.

Trump avaliou que é “possível, mas improvável” que a Rússia não soubesse com antecedência do ataque com armas químicas, que os EUA sustentam ter sido cometido por Assad. “Gostaria de acreditar que eles não sabiam, mas eles poderiam (saber), estavam lá”, afirmou, referindo-se às forças russas.

O secretário de Estado americano, Rex Tillerson, e o chanceler da Rússia, Serguei Lavrov, não conseguiram conciliar suas visões em relação à Síria em um encontro de quatro horas nesta quarta-feira em Moscou. Tillerson afirmou que os EUA estão convencidos de que Assad ordenou o ataque, no qual 89 pessoas morreram. Lavrov disse que os estoques de armas químicas em poder do regime sírio foram eliminados e os remanescentes estão em poder de rebeldes. 

“Há um baixo nível de confiança entre nossos países. As duas maiores potências nucleares do mundo não podem ter esse tipo de relacionamento”, disse Tillerson, que também se reuniu com Putin. Os dois governos concordaram em ampliar os canais de comunicação e restabelecer a linha destinada a evitar choques entre as forças militares americanas e russas que atuam na Síria.

O mecanismo havia sido suspenso por Putin após os EUA bombardearem uma base síria em retaliação ao ataque químico.

Lavrov reiterou a oposição de seu governo à ação militar americana e afirmou que Washington não deve interferir em assuntos internos da Síria. Ele ressaltou que as forças russas estão na Síria a pedido de Assad e citou casos recentes de mudança de regime promovidos pelos EUA que deixaram um legado de instabilidade nos países afetados, entre os quais Iraque e Líbia.

“O reino da família Assad está chegando ao fim”, afirmou Tillerson. “A Rússia, como seu mais próximo aliado no conflito, talvez tenha as melhores condições de ajudar Assad a reconhecer essa realidade.”

William Pomeranz, especialista em Rússia do Wilson Institute, disse que não vê nenhuma possibilidade de Moscou abandonar Assad e se alinhar com os EUA na Síria. “Os dois países têm laços antigos, a Rússia possui uma base naval na Síria e Putin tem uma política sólida de apoiar aliados tradicionais.”

 

 

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