Jose Luis Magana/AP
Jose Luis Magana/AP

Há uma receita para protestos darem certo na Venezuela

Números grandes são importantes, mas somente se eles representarem segmentos diversos da sociedade

Amanda Erickson / W. POST*, O Estado de S.Paulo

27 Abril 2017 | 05h00

Nas três últimas semanas, os protestos na Venezuela chegaram ao ponto de ebulição. A escassez de alimentos deixou muita gente com fome e o acesso a gêneros básicos e remédios é, na melhor hipótese, intermitente. A inflação está fora de controle e o crime é uma realidade diária. Corrupção e má administração dilapidaram as vastas reservas de petróleo.

Os protestos estão entre os maiores que o país já viu, mas será que funcionarão? Erica Chenowth, cientista política na Universidade de Denver, estuda movimentos de massa. Em parte de suas pesquisas mais recentes, ela examinou cada esforço popular para derrubar um governo - cerca de 500 casos. Fatiou, picou e quantificou os dados para imaginar o que torna esses movimentos eficazes. Segundo suas pesquisas, protestos de massa têm maior probabilidade de funcionar com um par de fatores.

Em primeiro lugar, números grandes são importantes, mas somente se eles representarem segmentos diversos da sociedade. E a participação não precisa ser avassaladora. Ponha meros 3,5% da população de um país na rua e é provável que seu movimento funcione. Esses movimentos funcionam melhor quando são inovadores e flexíveis, particularmente em regimes mais repressivos.

Movimentos que começam a se diversificar para outras formas de não cooperação, como greves econômicas e boicotes, são capazes de aplicar vários tipos de pressão sobre o oponente enquanto reduzem ao mínimo os riscos”. Essa flexibilidade ajuda com outro fator chave - resiliência mesmo quando a repressão começa a aumentar.

Outro fator importante: a lealdade entre as forças de segurança muda. Isso não significa que a polícia começará a marchar com a oposição. Mas basta faltar ao trabalho ou se recusar a disparar sobre manifestantes. “Elas não querem sair agredindo um bando de mulheres idosas”. Por último e, talvez, contra o senso comum: movimentos de oposição não violentos são duas vezes mais eficazes que os violentos. Isso porque os pacíficos atraem um universo mais amplo e são sustentáveis por mais tempo.

Terá a Venezuela o que é preciso? Miguel Tinker Salas, um especialista regional no Pomona College, diz não ter certeza. Ele pondera que existem protestos na Venezuela há 16 anos. Apesar de o movimento atual ser maior, Salas diz não saber ao certo se isso está atraindo os tipos diversos de público necessários para mudar a conversa.

“Não vejo que eles tenham expandido sua base”, diz. Ele acredita que a oposição colocou um conjunto de demandas muito rígido: Maduro tem de sair, sem negociação. Isso não deixa espaço para o governo programar eleições regionais neste ano, que candidatos de oposição provavelmente venceriam. Isto dificultará a atração de moderados.

Ainda assim, ele acha que a escassez existente em todo o país está enfurecendo quem até agora estava disposto a deixar o governo tentar corrigir o curso. A ideia de escassez vai contra o sentimento do país - um lugar que sempre foi rico em recursos naturais, onde as pessoas não passavam necessidade. E mesmo que a oposição tenha êxito, ele se disse preocupado com o que viria em seguida. “O que não está claro é o fim do jogo, o que a oposição espera realizar?”, questiona. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*É JORNALISTA

 

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