AP/Carolyn Kaster
AP/Carolyn Kaster

História como trunfo

Na visita de Trump a Paris, Macron abusou de datas e locais especiais para recebê-lo

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2017 | 05h00

Donald Trump assistirá hoje na tribuna de honra ao desfile das tropas francesas na Avenida Champs-Elysées, onde é comemorada, como todo ano, a Queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789, que deu início à Revolução Francesa. Mais um belo golpe dado por Emmanuel Macron. 

No momento em que Trump se debate no lodaçal do envolvimento russo nas eleições americanas, e se torna inimigo de todo mundo em razão de seu amadorismo, sua violência, sua pobreza de vocabulário, sua ausência de gramática e de sintaxe, seu apego ao carvão e suas digressões imprevisíveis, o presidente francês o convida com todo fausto a Paris. Trump se delicia.

E aí identificamos Macron, ex-banqueiro, um homem que conhece os arcanos e as estratégias da Bolsa. “Ele comprou Trump na baixa. E deixa claro que os Estados Unidos continuam imprescindíveis, sejam quais forem os erros do seu presidente”, disse um diplomata.

Mas Macron não se contenta em conhecer apenas os meandros das finanças ou da Bolsa. Também conhece a fundo a história do país. E utiliza a história do passado para sinalizar os caminhos do presente.

No caso de Trump, por exemplo, ele o inseriu entre três ou quatro datas: 14 de julho de 1789, início da Revolução Francesa, 14 de julho de 1917, entrada dos Estados Unidos na guerra, ao lado da França e contra a Alemanha, o Arco do Triunfo, cuja construção foi iniciada por Napoleão, em 1806 e, enfim, o restaurante Júlio Verne, na Torre Eiffel, que lembram os tempos dourados em que a França reinava sobre os espíritos do mundo.

Quando encontra um dirigente do alto escalão, Trump gosta de amassar sua mão com seu enorme punho. Ele tentou fazer isso há alguns meses com o presidente francês, mas ele resistiu às garras do americano. Desta vez, Macron adotou outra tática: não seria com um punho de ferro que levaria a melhor sobre Trump. Preferiu enredar seu convidado numa série de datas da história da França.

De passagem, Macron nos mostra para que serve um país ter uma história. Na França, dispomos de um reservatório infinito de datas históricas, desde o ano 400 até nossos dias. Há datas para todos os gostos. Quando recebemos um líder estrangeiro, basta ir até essa reserva e escolher a que melhor convém ao convidado do dia.

O general De Gaulle e François Mitterrand optaram por muitas datas da história da França para adornar seus convites a líderes estrangeiros. Mitterrand, por exemplo, escolheu o aniversário da Revolução Francesa para saudar George Bush pai. Depois dele, Nicolas Sarkozy e François Hollande, que não são grandes intelectuais, deixaram tranquilo o passado da França, salvo para comemorar, de vez em quando, o desembarque dos soldados americanos na Normandia, em 1944.

Mas, com Macron, o passado da França jorra abundantemente. Quando recebeu Putin, tirou de seus arquivos uma data um pouco empoeirada, mas que, tirado o pó e com um bom lustre, voltou a brilhar maravilhosamente: recebeu o líder russo, o atual czar, em Versalhes (o castelo do grande rei Luis XIV), 300 anos depois da vinda à França de um outro czar, e não era qualquer um, mas Pedro, o Grande, o mais célebre dos imperadores russos.

Saberemos de agora em diante qual a utilidade de um país ter uma história. Do mesmo modo que precisamos, quando convidamos pessoas da alta sociedade, ter na cave algumas garrafas de excelentes vinhos, é recomendado ter um estoque de grandes datas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

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