REUTERS/ David Mercado
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Ideias econômicas de Che teriam espaço ainda hoje, dizem analistas

Líder da Revolução Cubana escreveu e discursou sobre diversos temas relacionados ao conceito dele de uma sociedade mais justa

Claudia Müller, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2017 | 08h12

Além da faceta de guerrilheiro, mais comumente lembrada quando se pensa em Che Guevara, ele também teve contribuições importantes no campo teórico. O médico argentino escreveu textos e proferiu discursos sobre industrialização, desenvolvimento, problemas internacionais, guerrilha. Porém, no campo econômico suas ideias ainda continuam relevantes, segundo analistas.

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Diversos temas foram objeto de estudo e debate por Che Guevara em textos e discursos, como a estratégia revolucionária, o caminho do socialismo em sociedades subdesenvolvidas, o ser humano do futuro, a luta armada, relações de trabalho, a utilização de incentivos morais para aumentar a produtividade, a teoria marxista, entre outros. Além disso, ele se mostrou um cronista por meio de seus diários, que relataram suas viagens pela América Latina quando jovem, a guerra revolucionária em Cuba e a insurgência na Bolívia.

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Entretanto, os escritos sobre a guerrilha têm menos relevância atualmente do que na época em que foram feitos, explica o autor do livro "A Teoria Política de Che Guevara" e professor de filosofia na Universidade Saint Louis, em Madri, Renzo Llorente. “Hoje temos outras possibilidades de lutar pacificamente para mudar as sociedades de regiões como a América Latina”, explica.

Porém, suas teorias guerrilheiras encorajaram outras regiões e ajudaram a universalizar a experiência cubana. “O apoio que Cuba oferecia a muitas insurgências armadas depois do triunfo da Revolução Cubana tinham inspiração, pelo menos parcialmente, nas ideias de Che”, explica Llorente.

Para o coordenador do curso de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense, Adriano de Freixo, as ideias sobre guerrilhas tiveram grande impacto nas décadas de 1960 e 1970 e o livro "Guerra de Guerrilhas" foi fonte de inspiração para a maior parte da esquerda armada latino-americana naquele período.

“Isso aconteceu tanto por suas críticas à tática dos partidos comunistas de entrar no jogo eleitoral e parlamentar ‘burguês’, quanto pela ideia de que um pequeno grupo de revolucionários bem treinados trabalhando junto às populações camponesas teria condições de levar adiante o processo revolucionário”, ressalta Freixo.

Prática

As ideias econômicas de Che Guevara, principalmente sobre como a economia deveria ser organizada na tentativa de construir uma sociedade socialista, foram postas em prática quando ele se tornou ministro da Indústria em Cuba. “A crença na defesa da igualdade, no dever social e na solidariedade internacional continuam relevantes atualmente e inspiraram, por exemplo, as propostas de Che para reorganizar a economia cubana e mudar os princípios que regulam o comércio internacional”, explica Llorente.

Alguns dos discursos que ele fez sobre problemas internacionais, como a Guerra do Vietnã, a situação no Congo, da África em geral, e sobre pobreza, repressão e imperialismo ainda se mostram válidos, de acordo com a autora do livro "Che Guevara: A Economia da Revolução" e associada da London School of Economics and Political Science, Helen Yaffe. “Provavelmente, essas ideias são ainda mais relevantes hoje, em uma sociedade mais dividida entre os que têm tudo e os que têm nada”, afirma. “Todas as doenças socioeconômicas que Che e a Revolução Cubana tentaram confrontar, não apenas em Cuba, mas internacionalmente, ainda existem."

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Por ter esses pensamentos, Che divergiu de outros ministros cubanos, que apoiavam a União Soviética. Segundo Helen, em 1962 o médico argentino afirmava que o capitalismo voltaria para a URSS. “Ele não tinha uma bola de cristal, mas entendia as implicações das políticas econômicas que os soviéticos estavam seguindo, por meio do uso de ferramentas capitalistas que causavam  um aumento da individualidade, competição e busca do lucro”, afirma.

Para Llorente, Che se mostrou bastante crítico com algumas políticas da URSS “em um momento que alguns dirigentes cubanos se negavam a questionar a linha política de Moscou”. O coordenador do curso de Relações Internacionais da UFF também explica o conflito do argentino com as políticas da URSS. “Essa questão acaba sendo a base das divergências centrais entre Che e Fidel e, consequentemente, do distanciamento do modelo de socialismo imaginado por Che e efetivamente implementado em Cuba”.

Foram esses ideais, considerados pelo argentino essenciais para tornar a sociedade mais justa, fraterna e livre da exploração, que ajudaram na criação do ícone Che Guevara. “A sua aura de mártir que morreu em defesa das ideias em que acreditava foi fundamental para a construção do mito”, defende Freixo.

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