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Idolatria política nem sempre é estratégia eficaz

- Atualizado: 09 Janeiro 2016 | 17h 59

Para especialistas, símbolos têm hoje importância menor do que a capacidade de resolver problemas

A estratégia de utilizar imagens de líderes, como as de Simón Bolívar e Hugo Chávez, como peões da disputa política nem sempre é eficaz, explica o pesquisador do Observatório da Venezuela em Bogotá Ronal Rodríguez, pois a dividida sociedade venezuelana passou a dar prioridade à resolução dos problemas e não à idolatria.

Num país onde lojas de artigos religiosos costumavam vender também objetos com os rostos de líderes, forçar a lembrança de Chávez como maneira de obter apoio popular pode não funcionar por muito tempo. “É uma estratégia para trazer o fervor da época de Chávez, mas isso é só publicidade, não resolve os problemas da Venezuela”, explica Rodríguez.

Imagem de Bolívar retirada de Assembleia Nacional foi feita com base em tomografia computadorizada

Imagem de Bolívar retirada de Assembleia Nacional foi feita com base em tomografia computadorizada

Em dois anos de governo de Nicolás Maduro, a imagem de Chávez não está mais tão presente em sites do governo, nem na vida dos venezuelanos. “Desde a chegada do novo presidente, muitas pessoas já não se sentem mais tão identificadas com o chavismo”, afirma o pesquisador. “Hoje o povo sabe que nem todos os problemas são culpa de Maduro, até porque Chavéz ficou 16 anos no poder.”

A imagem do ex-presidente nesse período foi fundamentalmente criada em torno da idolatria, característica muito presente nas sociedades latino-americanas, segundo Rodríguez. Mas a oposição também quer fazer uso desse símbolo. “Quando o Parlamento anunciou a retirada das imagens de Chávez e Bolívar, eles compararam esse momento à queda de uma ditadura, um regresso da democracia”, explica. 

Para o diretor do Centro de Liderança e Ética da Universidade de Columbia, Bruce Kogut, o poder dessas imagens para conquistar popularidade para os chavistas vai “depender da capacidade de Maduro de criar uma narrativa alternativa de justiça social e crescimento econômico”. Ao longo dos 30 anos de democracia na América Latina, objetos de idolatria foram perdendo força. “Os latinos perceberam que não precisamos de personagens, mas de sistemas democráticos que têm que ir se consolidando”, ressalta.

Um exemplo de símbolo de adoração que não conseguiu se manter no poder foi o kirchnerismo. Em 2011, um ano após a morte de Néstor Kirchner, Buenos Aires estava repleta de imagens do líder, o que foi útil na candidatura à presidência de sua mulher, Cristina. “Essa condição sagrada dos Kirchners, que foi usada para cultivar sua popularidade, não manteve o candidato deles no poder na última eleição”, diz Rodríguez. 

A visão dos latino-americanos de idolatrar a imagem de ídolos não ocorre em Cuba. O ex-presidente Fidel Castro não quer que espalhem estátuas dele pelo país. “Fidel passou o poder para seu irmão enquanto estava vivo, então seu legado é preservado enquanto Raúl persegue uma nova política”, explica Kogut. Para Rodríguez, a situação da ilha é particular, pois a imagem de Fidel é do homem forte: “Os governantes precisam aprender a ler sua sociedade”.

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