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'Indiferença é cumplicidade', diz Maria Corina sobre Brasil e Venezuela

DENISE CHRISPIM MARIN / ENVIADA ESPECIAL

02 Abril 2014 | 12h 09

Deputada critica posição da diplomacia brasileira na crise; leia a entrevista

CARACAS - A deputada opositora venezuelana Maria Corina Machado deve apresentar hoje na Comissão de Relações Exteriores do Senado sua visão sobre a crise política no país. Para a parlamentar cassada, o governo de Nicolás Maduro cruzou uma linha vermelha e se mostra debilitado e fragilizado.

Segundo María Corina, os governos democráticos da região, como o do Brasil, devem rever seu respaldo e solidariedade ao governo de Maduro. "A indiferença, nesse caso, significa cumplicidade", ressaltou em entrevista por telefone, minutos antes da decolagem do avião que a traria ao Brasil. A seguir, trechos da entrevista ao Estado:

Depois da cassação de seu mandato ser respaldada pela Justiça, militares impediram ontem uma marcha que a senhora lideraria até a Assembleia Legislativa. Como resume o que acontece na Venezuela?

Com esses atos, o governo de Nicolás Maduro fez uma confissão de sua vocação ditatorial. O governo tomou a decisão de destituir um deputado eleito e, para tanto, valeu-se da ação do presidente da Assembleia Legislativa (Diosdado Cabello) e do aval apressado e sem respaldo constitucional do Tribunal Supremo de Justiça, que tentou pincelar um verniz de legalidade no que havia sido feito. Essa foi uma iniciativa absolutamente ditatorial, seguida por outras medidas inconstitucionais, como impedir o meu acesso ao Legislativo e reprimir cidadãos no exercício do direito de se manifestar publicamente. Tudo isso demonstra a enorme fragilidade e debilidade desse regime.

O que a senhora espera dos políticos de oposição e dos aliados da presidente Dilma Rousseff dentro de fora do Congresso brasileiro?

Nós todos da oposição esperamos muito do povo brasileiro, que desenvolveu um espírito altamente democrático e que tem ciência do seu passado e do futuro em comum com os venezuelanos. Na verdade, tínhamos muitas expectativas do atual e do último governos do Brasil, que se frustraram. O Brasil espera ser um líder regional e, para isso, terá de demonstrar na prática coerência na defesa de princípios inalienáveis, como o respeito aos direitos humanos, que tem sido violado sistematicamente pelo governo da Venezuela.

Como confirmar que esses abusos partiram do governo?

Desde janeiro passado, Maduro cruzou uma linha vermelha. Seu governo passou a se valer das forças de segurança e de grupos paramilitares armados para torturar, prender e assassinar venezuelanos. A responsabilidade pelo engajamento desses grupos paramilitares é exclusivamente dele e de seu governo. Vou apresentar os dados e fatos aos senadores brasileiros. Esses fatos não podem ser ignorados por nenhum governo democrático da América do Sul. A indiferença, nesse caso, significa cumplicidade.

Prefeitos e líderes opositores foram presos, a senhora foi cassada, as barricadas estudantis foram derrubadas e, ontem, os seus aliados não puderam seguir em marcha até a Assembleia. Quais os próximos passos da oposição na Venezuela?

Temos de nos manter unidos e firmes nos protestos cidadãos. Temos de continuar a pressionar o governo de Maduro em favor de profundas reformas políticas. Ao mesmo tempo, vamos dar continuidade a um movimento de sensibilização internacional, para que os países hoje solidários e cúmplices desse regime reconheçam que o governo de Maduro ultrapassou a linha do que é aceitável e que não merece mais nenhum respaldo.