Intensidade do ataque determinará oposição a Musharraf

A sustentabilidade do general Pervez Musharraf no poder, uma das preocupações do Ocidente, depende de três fatores: a extensão dos ataques, o uso que a coalizão liderada pelos Estados Unidos pretende fazer do Paquistão e até onde podem crescer os protestos diários contra a posição assumida pelo presidente paquistanês. Os três fatores estão interligados. Ataques maciços contra o Afeganistão lançados a partir do Paquistão podem engrossar substancialmente as manifestações, hoje restritas ao núcleo mais radical dos fundamentalistas islâmicos. "A longa permanência de tropas terrestres sem um mandato da ONU criaria problemas com a opinião pública paquistanesa", diz o professor Riffat Hussain, do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Quaid-e-Azam. Em seu pronunciamento à nação, há duas semanas, Musharraf disse que os paquistaneses que se opõem à sua decisão de apoiar os EUA representam de 10% a 15% da população. De acordo com Hussain, essa avaliação é "bastante precisa", no momento. "Mas essa fatia pode crescer, dependendo do que os EUA fizerem no Afeganistão e se atingirem também outros países muçulmanos, configurando um ataque ao mundo islâmico." Se os alvos dos ataques forem bem definidos e restritos ao Afeganistão, a oposição não deve crescer, prevê o cientista político. "Será localizada, confinada às áreas tribais e aos guetos dos pashtos (etnia majoritária no Paquistão e no Afeganistão) mais aguerridos." Hussain garante que as Forças Armadas estão coesas em torno do presidente, que assumiu o poder num golpe militar, em outubro de 1999. Depois do ataque do dia 11 nos EUA, Musharraf fez uma reunião de oito horas com os comandantes das Forças Armadas, na qual explicou que os custos do apoio à coalizão serão sentidos no curto prazo, mas os benefícios virão com o tempo. E fez ver a seus interlocutores que, se ano adotasse essa posição, o pais seria bombardeado de volta para a Idade da Pedra. Os mesmos argumentos foram apresentados numa reunião posterior de três horas e meia, com 22 especialistas e formadores de opinião, da qual Hussain participou. O especialista reconhece que existem, entre os oficiais, simpatizantes do Taleban. "Mas as Forças Armadas paquistanesas tem uma corporação muito disciplinada, com uma tradição de nunca se terem insubordinado contra seus superiores na Historia." As quatro tentativas de golpe militar por oficiais sem o apoio dos comandantes fracassaram: em 1952, 72, 74 e 75. Em contrapartida, nos confrontos com chefes de Estado e de governo, os comandantes militares tem tido o apoio da corporação. Foi o que ocorreu com o próprio Musharraf, que vinha de uma queda-de-braço com Nawaz Sharif, quando o enato primeiro-ministro impediu que seu avião aterrissasse, de volta de uma viagem ao Sri Lanka, do qual o Paquistão é o segundo fornecedor de armas, depois da China. Musharraf era na época o comandante do Estado-Maior Conjunto. Os comandantes das três Armas o apoiaram e derrubaram o primeiro-ministro. "É um Exército muito profissional e coeso", confirma o general da reserva Talad Massud, ex-secretário de Produção do Ministério da Defesa. "Musharraf goza do respaldo absoluto da corporação", acrescenta o general, um critico do apoio que o Paquistão deu ao Taleban ate os ataques do dia 11 aos EUA. Entretanto, ha uma segunda tradição entre os militares paquistaneses, igualmente importante, assinala Hussain: a de nunca haver reprimido a população de forma violenta e maciça. "É um Exército nacional popular, orgulhoso dessa condição, que não deixará manchar sua imagem." Assim, a possibilidade de dezenas de milhares de manifestantes tomarem as ruas seria um "cenário de pesadelo". Para evitá-lo, o governo imporá, antes, a lei marcial. Não por acaso, em Islamabad, já é proibida a concentração de mais de cinco pessoas.

Agencia Estado,

07 Outubro 2001 | 14h06

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