AFP / FEDERICO PARRA
AFP / FEDERICO PARRA

Interferência do Supremo da Venezuela está relacionada à divida do país, dizem analistas

De acordo com economistas consultados pelo 'Estado', após buscar financiamento externo para honrar seus compromissos e não conseguir, governo de Nicolás Maduro recorreu a manobra realizada pelo TSJ

Cristiano Dias, Enviado Especial / Caracas, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2017 | 05h00

CARACAS - A crise política na Venezuela desatada no dia 29, quando o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) assumiu as atribuições do Legislativo, tem uma razão econômica. O governo do presidente Nicolás Maduro e a estatal do petróleo, a PDVSA, devem cerca de US$ 3 bilhões em pagamentos de juros da dívida externa referentes aos meses de março, abril e maio. Caracas buscou financiamento externo para honrar seus compromissos, mas não conseguiu. De todos, ouviu a mesma resposta: qualquer novo empréstimo teria de ter a anuência da oposição, que domina a Assembleia Nacional.

Segundo economistas venezuelanos consultados no domingo pelo Estado, a única maneira de conseguir a aprovação seria driblar a autoridade do Parlamento e a saída encontrada foi a manobra realizada pelo TSJ. “O governo está numa situação muito ruim. De acordo com a Constituição, ele precisa do aval da Assembleia para se endividar”, disse o economista José Guerra. “Por isso, é possível que tenham tomado esta atitude extrema.”

“Acredito que as duas coisas possam estar relacionadas”, afirmou o também economista Richard Obuchi. “É o que muita gente acredita, mas só poderemos saber com certeza se o governo não tem mesmo o dinheiro quando deixar de pagar.”

De acordo com o cronograma de pagamento, somente em abril o governo deveria pagar US$ 437 milhões e a PDVSA, US$ 255 milhões. Em maio, Maduro teria de desembolsar US$ 182 milhões; a PDVSA, US$ 800 milhões. Em fevereiro, o ministro da Economia e Finanças, Rodolfo Marco Torres, comemorou o fato de o governo ter conseguido o dinheiro para honrar os compromissos de março, mas não falou de abril e maio.

No mês passado, o presidente do Banco Central da Venezuela, Nelson Merentes, declarou que o país ainda buscava financiamento internacional para pagar a dívida e disse que a Venezuela restringiria ainda mais as importações para honrar seus compromissos.

O presidente, no entanto, não contava com a reação interna - até mesmo a procuradora-geral, Luisa Ortega, chavista, qualificou a manobra como “inconstitucional” contra a decisão do TSJ. Houve manifestações em todo o país no sábado e a comunidade internacional ameaçou isolar ainda mais Maduro, que desfez a gambiarra política antes que o Supremo desse o aval para os empréstimos.

No domingo, um dia depois de o Mercosul e a Organização dos Estados Americanos (OEA) declararem preocupação com a crise política venezuelana, Maduro pediu “respeito ao mundo inteiro” e rejeitou a interferência internacional.

“O país, com sua dignidade, exige respeito ao mundo inteiro para seguir vivendo em paz”, afirmou o presidente durante seu programa semanal Los Domingos con Maduro, na TV estatal. “Que ninguém se meta nos assuntos dos venezuelanos.”

Ofensiva. A maioria opositora da Assembleia Nacional da Venezuela anunciou no domingo que começará um processo para remover de seus cargos os magistrados da Sala Constitucional do TSJ, responsáveis pelo que classificam de “golpe institucional”. Todos os juízes da corte são chavistas.

“Esses juízes que deram um golpe de Estado não podem ficar impunes. Não vamos nos render”, declarou o primeiro vice-presidente da Assembleia Nacional, deputado Freddy Guevara, em discurso diante da sede do Legislativo em Caracas.

Guevara ainda fez um chamado para que a população vá às ruas amanhã para apoiar a Assembleia Nacional e exigir a destituição dos magistrados. Segundo a imprensa venezuelana, uma passeata deve ter início às 10 horas (11 horas em Brasília) no centro da capital.

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