Robert Pratta/Reuters
Robert Pratta/Reuters

Interferência na França

Boatos venenosos sobre candidato Emmanuel Macron começam a circular online

Gilles Lapouge*, O Estado de S. Paulo

16 Fevereiro 2017 | 05h00

A campanha para as eleições presidenciais francesas de abril e maio ganha a cada dia mais elementos malucos e grotescos. Favoritos caem como mangas maduras nas ruas de Belém do Pará. A cada manhã, encontram-se pela rua os rostos arrasados de antigos favoritos, Sarkozy, Hollande, Juppé, etc. Em seu lugar, outros favoritos, que na véspera eram desconhecidos, sobem ao primeiro plano.

Na última fornada, um desconhecido, mal identificado, nem de direita nem de esquerda, segura a dianteira. Nenhum partido o apoia, mas ele tem o dobro das intenções de voto dos outros concorrentes, exceto Marine Le Pen, que é claro, continua no céu. Esse estranho no ninho é Emmanuel Macron.

As pessoas querem saber com qual combustível ele roda. Tudo bem, ele é inteligente e tem uma aparência agradável, que contrasta com as de Sarkozy, Hollande ou Juppé. Mas apenas isso não explica sua trajetória improvável.

Alguns dias atrás, começaram a levantar o véu por trás do qual se esconde o inocente Macron. Homossexual, ele é financiado pelo “lobby gay”. Mas isso não basta. Na verdade, o tipo é igualmente financiado pelo “lobby bancário americano”. Como foi que ninguém nos avisou? Era tudo tão evidente!

O chato é que Macron não é homossexual. E, se ele foi banqueiro um dia, não foi a serviço de lobbies americanos. Então, de onde está saindo esse mar de lama, de perfídias, de maldades que se derramam sobre a campanha presidencial? Provavelmente, de Moscou. Das mesmas oficinas de hackers que inundaram os EUA de documentos confidenciais cobrindo Hillary Clinton de infâmias para garantir a eleição do escolhido do Kremlin, Donald Trump.

Na França, a Rússia tinha dois amigos: Marine Le Pen, que financia sua campanha eleitoral com o dinheiro de um banco russo e cujo programa violentamente contra a União Europeia encanta a Putin, e François Fillon, da direita clássica (partido Republicanos), também muito indulgente com os russos.

O Kremlin estava feliz, portanto. François Fillon foi apanhado numa grotesca vilania financeira, mas continua no páreo, e Marine Le Pen vai vencer o primeiro turno – mas não o segundo. E eis que um ilustre desconhecido invade a pista, o tal Emmanuel Macron, e ultrapassa todos os demais cavalos.

Suspeitas. Então, o que se faz, num caso parecido, quando se é chefe do Kremlin? Inunda-se a França de textos imaginários, pirateia-se caixas de e-mails, lança-se milhares de ataques cibernéticos para manchar a campanha do tal Macron. E faz-se circular rumores venenosos de origem desconhecida, homossexual, fantoche dos bancos americanos.

Nem é preciso sublinhar a gravidade dessas atitudes, se elas forem comprovadas. Tudo indica que o Kremlin jogou e joga um papel considerável nas duas importantes eleições presidenciais, a dos Estados Unidos, onde Trump venceu, a da França, onde a Rússia faz o que pode para favorecer Marine Le Pen ou o pobre François Fillon, e barrar o caminho do intruso Emmanuel Macron.

Essas manobras são ainda mais perniciosas porque conseguir provas formais delas é muito difícil, se não impossível. Penetra-se em territórios de sombra, em áreas cinzentas, de suspeitas.

Se tais suspeitas se confirmarem, porém, não resta dúvida de que as eleições nos EUA, e agora na França, constituirão datas importantes na história: aquelas em que a política entrou na era moderna. Ou pós-moderna. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

 

*CORRESPONDENTE EM PARIS

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