REUTERS/Alkis Konstantinidis
REUTERS/Alkis Konstantinidis

Inverno chega à Europa e se torna um novo inimigo para os refugiados

Além da repressão por parte dos policiais e travessias árduas por rios perigosos, imigrantes agora temem o frio que se aproxima

O Estado de S. Paulo

19 Outubro 2015 | 10h14

OPATOVAC, CROÁCIA - Os imigrantes que chegaram à Europa pelos Bálcãs ocidentais nos últimos meses se adaptaram o suficiente para enfrentar policiais nada amigáveis, rios perigosos, fronteiras hostis e cercas de arame farpado. Mas há uma coisa da qual eles não podem escapar: o iminente inverno europeu.

Até o final do mês de agosto, a estação vai mudar nos Bálcãs. Chuvas, nevascas e ventos gelados complicarão ainda mais as árduas jornadas dos refugiados, que começam na Síria com destino às nações localizadas no coração da Europa ocidental.

Um corredor humanitário não oficial, que tem operado por mais de um mês graças à cooperação não reconhecida dos países envolvidos, conseguiu manter aqueles que procuram asilo em constante movimento pela região. Mas a situação sofreu mais uma piora após a Hungria anunciar que fecharia sua fronteira com a Croácia.

Enquanto os imigrantes se mantinham em movimento, os países ao longo do caminho puderam lidar com a grande quantidade de pessoas que atravessavam a região. Se isso se mantivesse, a chance de ocorrer uma tragédia causada pelo frio seria menor.

Mas com os fortes ventos mostrando os primeiros sinais de geada e a situação nas fronteiras sem uma solução, refugiados, voluntários e autoridades olham ansiosamente para frente. Se os números continuarem aumentando drasticamente ou, pior, se mais fronteiras se fecharem, haverá um movimento quase imediato que aumentará rapidamente as populações nos campos de refugiados próximos às fronteiras dentro de uma semana.

“No momento, está tudo bem”, disse Uros Jovanovic, diretor de um novo centro de processamento de pedidos de asilo instalado em um antigo hospital psiquiátrico próximo à fronteira entre a Sérvia e a Croácia. “Mas em 20 dias ou menos, estará muito frio aqui.”

As ameaças iminentes têm mantido os imigrantes em movimento, indo de fronteira em fronteira para tentar chegar aos seus destinos, na maioria, Alemanha e Suécia.

“Estou com medo, todos estão com medo”, disse Ali Lolo, 35 anos, gerente de uma loja de roupas em Damasco, na Síria, que estava com sua família na semana passada sob uma lona no acampamento para refugiados, onde poucas barracas são aquecidas. “Estamos preocupados que eles possam fechar a fronteira, mas também estamos preocupados com o inverno. Precisamos chegar onde queremos antes que a neve comece a cair.”

Nos anos anteriores, o fluxo de imigrantes para a Europa diminuía conforme a chegada do inverno. Contudo, mesmo com grande parte deles evitando a rota pelo mar da Líbia para a Itália, o número de refugiados que chegam ao continente europeu continua alto. Em apenas um dia de outubro, 5.800 refugiados foram registrados na fronteira da Sérvia com a Macedônia.

“O medo de fecharem as fronteiras e da chegada do inverno está promovendo uma corrida”, disse Mette Petersen, porta-voz regional da Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

Os governos da região lutam para encontrar edifícios vagos, como quartéis militares ou escolas, que poderiam ser rapidamente transformados em habitações aquecidas para os imigrantes. Voluntários também tentam reunir um estoque de cobertores, casacos e barracas especialmente projetadas para o inverno, caso o pior aconteça.

Na Áustria, onde centenas pedem asilo, autoridades no maior campo de recepção de refugiados fora de Viena espera conseguir todas as barracas que precisa até o final do mês e transferir os imigrantes para locais aquecidos.

“Estamos congelando”, afirmou Fadi, 42 anos, ex-dona de um salão de cabeleireiro e que preferiu não divulgar seu sobrenome para proteger sua família na Síria. “Não dormimos. Fazemos exercícios a noite toda para nos manter aquecidos.”

Em Principovac, uma cidade na fronteira com a Sérvia, trabalhadores correm para transformar um antigo hospital psiquiátrico no que o país espera ser a primeira instalação aquecida para os imigrantes.

“Temos eletricidade, em poucos dias teremos água, e aquecimento até o final da semana”, disse Jovanovic. “No momento, está tudo certo. Mas ninguém sabe o que pode acontecer.”

A maior incerteza, no entanto, é o quão rigoroso será o inverno. “Talvez seja um inverno moderado”, afirmou Aleksandar Vulin, ministro do Trabalho, Emprego, Veteranos e Política Social na Sérvia. “Quem sabe o que irá acontecer?” /THE NEW YORK TIMES

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