Kevin Lamarque/Reuters
Kevin Lamarque/Reuters

Investigação sobre Rússia aumenta pressão por pedido de impeachment de Trump

Prisão domiciliar de ex-chefe de campanha e delação premiada de ex-assessor de política internacional complicam o presidente americano

Gabriela Korman e Victor Rezende, O Estado de S.Paulo

02 Novembro 2017 | 09h34

 Os mais recentes desdobramentos da investigação sobre a suposta interferência da Rússia na eleição presidencial americana do ano passado deixaram o Congresso americano ainda mais dividido. Apesar do nome do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ainda não ter sido citado, notícias sobre os laços envolvendo sua campanha e o Kremlin vêm ganhando força. Com isso, a pressão para novos pedidos de impeachment contra o republicano também acelerou.

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Pedidos para que o presidente americano seja impedido de continuar no cargo não são novidade. Em maio, o deputado democrata Al Green (Texas) prometeu protocolar um impeachment de Trump, o que ainda não ocorreu. No entanto, o movimento tem chances de avançar no curto prazo. Segundo o senador democrata Luis Gutierrez, "diversos membros" do Comitê Judiciário do Senado pretendem "entrar com pedidos de impeachment contra Trump antes do Dia de Ação de Graças" nos EUA, em 23 de novembro.

O senador disse, ainda, que diferentemente da tentativa solitária de Al Green, desta vez a ação é coordenada. "Nós apoiamos membros do Senado que entram com sua própria documentação de impeachment, mas vamos usar uma variada gama de acadêmicos constitucionais e realmente montar um argumento para que o presidente seja destituído", declarou Gutierrez. Em entrevista ao jornal Chicago Tribune, ele não quis divulgar as questões específicas que serão colocadas na documentação, apesar de ter citado obstrução de Justiça e um possível conluio com a Rússia durante a eleição.

As hipóteses de que ocorreu um envolvimento entre a campanha de Trump e a Rússia durante o período eleitoral ganharam novos contornos nesta semana. Na segunda-feira, o conselheiro especial Robert Mueller, responsável pela investigação da interferência russa no Departamento de Justiça (DoJ, na sigla em inglês), indiciou o ex-diretor de campanha de Trump, Paul Manafort, e Rick Gates, outro assessor da equipe, por conspiração contra os EUA, lavagem de dinheiro e outros crimes.

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Uma das bases para a acusação foi a delação premiada do ex-conselheiro da campanha presidencial, George Papadopoulos, que disse ter proposto uma reunião entre integrantes das equipes de Trump e do presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante a campanha eleitoral americana de 2016 - ideia que teria sido aprovada pela equipe de Trump.

"A documentação apresentada contra Manafort mostra que os atos ilegais duraram até o início de 2017", apontou o diretor geral do Deutsche Bank, Jim Reid, em relatório enviado a clientes. Para ele, o fato de Papadopoulos, que serviu como assessor direto do presidente, estar colaborando com a Justiça pode ter um impacto político significativo.

Manafort e Gates, que negam as alegações de conspiração contra os EUA, irão prestar depoimento diante de uma corte nesta quinta-feira. Trump já tentou se distanciar das acusações que pesam contra o ex-diretor de sua campanha, mas isso tende a ser mais um baque para sua popularidade. De acordo com o instituto Gallup, na segunda-feira, quando as notícias foram divulgadas, 33% dos americanos aprovavam o governo do republicano, enquanto 62% o desaprovavam no comando do país.

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Pesquisa divulgada na terça-feira pela Public Policy Polling mostrou que quase metade dos americanos apoiam um impeachment de Trump - uma taxa recorde desde que assumiu o governo, em janeiro. No final de outubro, 49% dos entrevistados afirmaram apoiar a saída do republicano do cargo, enquanto 41% se mostraram contra.

Em mais um sinal do aumento da desaprovação do presidente, mais de um milhão de pessoas assinaram em 11 dias uma petição de impeachment, criada pelo bilionário Tom Steyer. O documento pede que Trump seja removido do cargo pelo "abuso ou violação da confiança pública".

Agenda legislativa

O crescimento das investigações que afetam diretamente o presidente podem influenciar a agenda legislativa da Casa Branca e impor atrasos a votações de importantes reformas, como a do sistema tributário. O presidente da Câmara dos Representantes, o republicano Paul Ryan (Wisconsin), afirmou que isso é improvável. No entanto, os mercados financeiros, que se mostravam bastante otimistas com a possibilidade da reforma ser aprovada ainda este ano, tiveram leve estremecimento na segunda-feira.

Reid, do Deutsche Bank, comentou que ainda é muito cedo para saber se essa questão terá algum desdobramento sobre Trump ou até mesmo sobre o avanço da reforma tributária no Congresso. Já o chefe de estratégia de mercados globais do banco de investimentos Brown Brothers Harriman, Marc Chandler, não vê qualquer efeito da bomba política no andamento da agenda legislativa. "Apesar das manchetes em torno das acusações nas investigações sobre a Rússia nos EUA, os investidores estão mais interessados na reforma tributária, e a situação, mesmo em cima da hora, está muito fluida", aponta.

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Em entrevista ao Broadcast, o analista Justin Paolini, da corretora australiana FX Renew, diz que o dólar mais forte nos últimos dias é reflexo de que o mercado ainda olha para o potencial da agenda de reformas, que atrairiam capital estrangeiro para os EUA, "especialmente com uma falta de alternativas internacionais entre os países desenvolvidos, dado o caos político generalizado na Europa". Assim, o caso Rússia não teria grande influência nos negócios ao menos até o fim de novembro. A partir daí, no entanto, uma possível não aprovação da reforma tributária no Congresso poderia se somar à intensificação das investigações, gerando mau estar nos negócios em solo americano.

A avaliação de Paolini vai na mesma linha da visão do estrategista global do dinamarquês Saxo Bank, Kay Van-Petersen, para quem a influência do caso Rússia não deve afetar os mercados fortemente por enquanto, "a menos que fique clara a ligação de algum membro importante do governo com o Kremlin". Até o momento, o mais próximo disso foi a reunião envolvendo o filho mais velho do presidente, Donald Trump Jr., e o genro do republicano, James Kushner, feita durante a campanha com uma advogada russa que teria conexões com o governo de Vladimir Putin. 

 

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