Irã atenua efeitos das possíveis sanções

Depois de analisarem resolução, iranianos festejam como se fosse uma vitória, dando a entender que punições não afetam seu programa nuclear

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2010 | 00h00

CORRESPONDENTE / NOVA YORK

O texto das sanções acertado pelos EUA com os outros quatro membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU ficou aquém do desejado pelos americanos. Os iranianos, ao analisarem o teor da proposta de resolução, celebraram como uma vitória, dando a entender que, como nas vezes anteriores, conseguirão burlar as restrições impostas pela organização.

Esta seria a quarta vez que os iranianos enfrentam sanções no Conselho de Segurança - Teerã também sofre sanções unilaterais impostas pelos EUA. Apesar disso, os iranianos souberam usar o petróleo, seu principal produto de exportação, para manter o crescimento e estabelecer novas parcerias comerciais, entre elas com o Brasil, que enviou uma missão de empresários ao país no mês passado.

O atual texto buscará impor ainda mais restrições às atividades militares, financeiras e mesmo de livre trânsito para autoridades iranianas. Um dos pontos da proposta de resolução permite a inspeção de navios iranianos em alto-mar.

O foco das sanções é a Guarda Revolucionária, grupo composto pela elite militar do Irã, ligada à Revolução Islâmica de 1979, que cresceu economicamente nos últimos anos, passando a dominar diversos setores da economia local.

Suzanne Maloney, do Brookings Institution, autora de um estudo sobre o efeito de sanções sobre os militares do país, afirmou que "o fortalecimento da Guarda Revolucionária talvez permita que as sanções tenham um impacto maior na tomada de decisão dos iranianos. A expansão das atividades econômicas da Guarda Revolucionária é um alvo conveniente para medidas. O objetivo é pressionar seus parceiros comerciais e redes de negócios que podem levar o governo a se tornar mais moderado na questão nuclear.

Nas outras três vezes em que o Irã foi alvo de resoluções, a economia conseguiu superar as restrições e o regime iraniano acabou vendendo o esforço diplomático como uma vitória.

Desta vez, mesmo antes de as sanções terem sido levadas para votação no Conselho de Segurança, Teerã já disse que elas não terão efeito. "Apesar de todas as restrições que os países arrogantes impuseram ao Irã na arena global, a República Islâmica teve um sucesso significante nas áreas política e econômica", disse o ministro da Energia do Irã, Majid Namjou.

O professor de economia Ebrahim Hosseini-Nassab, da Universidade Tarbiat Modares, de Teerã, acrescentou que "o governo iraniano aprendeu em experiências passadas sobre como lidar com as sanções". Nicole Strake, do Gulf Research Center, de Dubai, nos Emirados Árabes, acrescentou que a nova série de sanções "não deve alterar a posição iraniana sobre a questão nuclear".

O professor Abbas Milani, diretor do Centro de Estudos Iranianos da Universidade Stanford, discorda da facilidade com que os iranianos superarão as sanções. "O regime sempre teve como burlar estas sanções. Agora, passei a achar que o governo teme as sanções ao fazer de tudo para impedir a aprovação", afirmou Milani.

Max Fisher, analista político da revista Atlantic, acredita que o cenário agora tenha mudado porque os russos passaram ver os iranianos como rivais na exportação de gás para a Europa.

Restrições

Bancos

Proíbe o financiamento de projetos ligados ao programa nuclear iraniano, incluindo restrições ao Banco Central do Irã

Transporte

Barcos seriam vistoriadas para evitar troca de material nuclear. Hoje, EUA já proíbem venda de peças para aviação comercial

Mineração

Impede investimentos em mineração de urânio. Hoje, sanção já impede que empresas americanas explorem petróleo no Irã

Armas

Veta o comércio de armas e munição de guerra e proíbe o regime iraniano de realizar novos testes com mísseis balísticos

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