Irã continuará a enriquecer urânio a 20% mesmo com acordo, diz governo

Anúncio foi feito pouco depois de país firmar pacto de troca de material nuclear com Brasil e Turquia

Agência Estado

17 Maio 2010 | 08h48

Chanceleres (à frente) e presidentes celebram acordo em Teerã.

 

TEERÃ - O Irã vai continuar a enriquecer urânio a 20%, afirmou nesta segunda-feira, 17, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do país à agência Irna. A declaração foi dada pouco tempo depois de Teerã firmar um acordo com Brasil e Turquia para enviar a maior parte de seu urânio enriquecido e trocá-lo em território turco por material nuclear preparado para uso pacífico.

 

Em torno do acordo:

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"Claro que o enriquecimento a 20% irá continuar em nosso próprio país", disse o porta-voz Ramin Mehmanparast. O Irã recebeu muitas críticas internacionais em fevereiro, após começar a enriquecer urânio a 20%, necessário como combustível em seu reator de pesquisas.

 

O processo de enriquecimento de urânio pode ser usado tanto para fins pacíficos como para um programa de armas nucleares. Potências lideradas pelos EUA temem que o Irã busque secretamente essas armas, mas Teerã alega ter apenas fins pacíficos. Para produzir uma bomba atômica, é preciso urânio enriquecido a mais de 90%.

 

Repercussão:

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No domingo, os ministros de Relações Exteriores do Irã, da Turquia e do Brasil assinaram um acordo sobre o programa nuclear iraniano na reunião do G-15 (17 países em desenvolvimento), em Teerã. O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, aceitou trocar 1.200 quilos de urânio por material nuclear (enriquecido a 20%) equivalente para seu reator de pesquisas médicas. O processo deverá se dar em território turco.

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva considerou o acordo como uma "vitória da diplomacia". O Brasil, ao lado da Turquia, eram dois dos membros não permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) que rejeitavam a imposição de sanções contra o Irã por conta de seu programa nuclear e pediam mais diálogo.

 

O Irã já foi alvo de três rodadas de sanções no Conselho de Segurança por se recusar a interromper o enriquecimento de urânio. Os membros permanentes do órgão - EUA, França, Reino Unido, Rússia e China - negociam uma quarta rodada de sanções à República Islâmica. Chineses e russos, porém, mostram-se desfavoráveis às resoluções devido à boas relações comerciais que mantêm com os iranianos.

 

Diplomatas ocidentais próximos à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão regulador das atividades nucleares mantido pela ONU, afirmaram que o acordo não elimina as chances de serem aplicadas novas sanções, já que o Irã se recusa a interromper o enriquecimento de urânio. O pacto, porém, pode dificultar a ação do Conselho, já que Rússia e China podem se distanciar das negociações.

 

Especialistas:

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O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, porém, informou que já planeja retomar o diálogo com as potências do Conselho de Segurança. "Espero que o 5+1 - Reino Unido, EUA, China, Rússia, França e Alemanha - participem das negociações com honestidade, respeito e justiça e deem sequencia ao grande trabalho iniciado em Teerã", disse ele, segundo a agência de notícias estatal iraniana.

 

Ainda sobre a adoção de sanções pendente, o ministro de Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, e o primeir-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, disseram que o acordo faz com que não sejam mais necessárias tais medidas.

 

PONTOS-CHAVE

 

Proposta da AIEA

Em outubro, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) propõe ao Irã enviar urânio para França e Rússia, que o devolveriam enriquecido o suficiente para pesquisas

 

Condenação

Em novembro, a AIEA condena o Irã por manter segredo sobre estação de Qom. Teerã diz que motivação é política e anuncia construção de dez novas instalações nucleares

 

Pressão americana

O presidente americano, Barack Obama, diz que a única forma de frear o programa nuclear iraniano é a adoção de novas sanções pela ONU ao país. Grã-Bretanha, e França reforçam esta posição

 

Defesa brasileira

Contrariando os EUA, o presidente Lula afirma que sanções prejudicariam somente o povo iraniano e defende o direito do Irã de levar adiante um programa nuclear pacífico

 

 

Com informações de Roberto Simon, de O Estado de S. Paulo, e das agências internacionais

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