Irã e potências chegam a acordo nuclear em pontos-chave

Chanceler russo, Sergei Lavrov, diz que termos seriam redigidos até junho; iraniano Mohamed Zarif fala em ‘avanços’ e em concluir tratado nesta quarta-feira

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

31 Março 2015 | 23h03

O chanceler russo, Sergei Lavrov, anunciou nesta terça-feira, 31, um “acordo de princípios” entre o grupo P5+1 (EUA, Grã-Bretanha, França, China, Rússia e Alemanha) e o Irã e disse que até junho serão redigidos os “detalhes técnicos” de um tratado nuclear. “Chegamos a um entendimento de princípios sobre todos os pontos principais do acordo”, disse Lavrov. O chanceler iraniano, Mohamed Javad Zarif, confirmou os avanços e indicou que fará hoje uma declaração com a União Europeia para dar detalhes do entendimento. 

O anúncio foi feito depois de um impasse que quase causou o rompimento das negociações. O Irã exigia benefícios econômicos imediatos com um acordo nuclear e o fim das sanções da ONU, o que irritou algumas potências mundiais e fez os EUA ameaçarem abandonar o diálogo. 

O tratado deveria ter sido concluído na terça-feira. No entanto, sem um entendimento, o prazo final foi estendido para o dia seguinte. Ainda assim, sem solucionar alguns dos principais obstáculos, negociadores admitem que apenas uma declaração política poderia ser assinada na quarta-feira, enquanto pontos fundamentais do tratado seriam deixados para uma nova fase, que seria concluída em junho. 

“Não existe um entendimento nem político e nem técnico ainda, principalmente no que se refere às sanções e ao urânio enriquecido”, afirmou o negociador-chefe do Irã, Hamid Baeedinejad. Os iranianos acreditam que já fizeram sua parte e esperam uma retribuição. Ou seja, o fim das sanções da ONU, enquanto os embargos impostos unilateralmente por EUA e UE poderiam ser mantidos por um tempo maior. Desde 2006, o Conselho de Segurança aprovou oito pacotes de sanções contra o Irã. 

Entre as punições estão o congelamento ativos de líderes e de empresas iranianas pelo mundo, o banimento do fornecimento de materiais, armas e tecnologia ao país, a restrição de ações de bancos estrangeiros no Irã, uma autorização para governos inspecionarem navios e aviões iranianos e até mesmo uma proibição de viagens. 

O acordo nuclear negociado na Suíça pretende evitar que o Irã não tenha como desenvolver uma bomba atômica e garantir que, para fabricar um artefato, o país precise de pelo menos um ano de processo de enriquecimento. Esse tempo seria uma espécie de “seguro” que as potências teriam para poder eventualmente descobrir o projeto e destruí-lo. 

No entanto, para a Casa Branca, as sanções apenas deveriam ser retiradas de forma gradual, dependendo de como o Irã reagir ao comprimento do acordo. A visão dos americanos e europeus é de que foi justamente a pressão das sanções que levou Teerã a negociar. 

Outro ponto crítico se refere às pesquisas científicas no Irã e o tempo de duração do acordo. Teerã aceita reduzir de 20 mil para 6 mil o número de suas centrifugas usadas para enriquecimento de urânio, mas quer que o país seja autorizado a desenvolver sua própria tecnologia assim que o acordo deixar de vigorar, em dez anos. As potências mundiais alertam que o uso de qualquer nova tecnologia teria de ser gradualmente autorizado. 

Por fim, o destino do urânio enriquecido do Irã também é incerto. As potências querem que o material seja levado para instalações na Rússia, o que permitiria um monitoramento internacional. Os iranianos são contra.

Sem um acordo total, a alternativa seria anunciar um compromisso político nesta quarta-feira que permitiria que cada uma das partes declare que obteve avanços. Isso ainda justificaria o lançamento de uma nova fase de negociação e evitaria pressões contrárias ao acordo. 

Para o governo de Barack Obama, a declaração impediria que o Congresso, liderado por uma maioria republicana, se lance em uma nova rodada de sanções contra o Irã, o que dificultaria qualquer novo acordo nuclear. O entendimento também enfraqueceria o lobby feito por Israel, que insiste que a Casa Branca está seguindo um caminho “perigoso” ao negociar com os iranianos.

O governo francês, que vinha mantendo uma posição mais agressiva sobre um acordo nuclear com o Irã, chegou a lançar na terça-feira um ultimato, em nome do P5+1, para pressionar Teerã. Após as declarações de Lavrov e Zarif, no entanto, o chanceler da França, Laurent Fabius abandonou as negociações e retornou a Paris. De acordo com diplomatas da delegação francesa, Fabius voltaria a Lausanne apenas “se ele for útil” às negociações.

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