EFE/EPA/CHRISTIAN BRUNA
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Análise: Irã pode afastar EUA de aliados europeus

Trump deve fazer um discurso no fim da próxima semana, anunciando sua decisão e esboçando os resultados de uma revisão que durou meses, de sua política para o Irã

Karen Deyoung e Carol Morello* / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2017 | 05h00

Mais que qualquer outra questão a colocar em risco a coesão transatlântica este ano, a decisão do presidente Donald Trump de revogar a certificação da obediência iraniana com o acordo nuclear pode dar início a uma cadeia de acontecimentos que traria uma acentuada divisão entre os Estados Unidos e seus aliados tradicionais mais próximos no mundo.

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"Depois da decisão de Paris sobre o clima", pela qual Trump retirou os Estados Unidos de um acordo amplamente apoiado e penosamente negociado, "isso poderia levar o multilateralismo ao ponto de ruptura", disse um alto funcionário de um dos três signatários europeus do acordo com o Irã.

Nenhum dos três - Grã-Bretanha, França e Alemanha - acredita que o Irã esteja descumprindo o acertado, e cada um deles disse publicamente que não renegociará o acordo nuclear. A imposição de sanções pelos Estados Unidos afetará bancos que, mesmo indiretamente, fazem negócios no Irã, o que sem dúvida, influenciará as empresas desses países, dizem eles, e seria considerado um ato inamistoso.

"Não seguiremos os Estados Unidos ao voltar atrás com nossas obrigações internacionais com este acordo", disse um segundo alto funcionário. "Não o E-3, nem o restante dos 28 membros da União Europeia."

Trump deve fazer um discurso no fim da próxima semana, anunciando sua decisão e esboçando os resultados de uma revisão que durou meses, de sua política para o Irã. Pessoas familiarizadas com suas opiniões dizem que ele não certificará que o Irã está honrando seus compromissos e declarará que manter o acordo não é mais do interesse dos Estados Unidos.

Nada deve ocorrer imediatamente, pois a decisão será passada para o Congresso. O Senado poderia decidir restabelecer as sanções anteriores à negociação com Irã com uma maioria simples de 51, incluindo o voto do vice-presidente Mike Pence para solucionar qualquer empate.

Nesse caso, o Irã poderia convocar uma reunião da comissão de signatários regida pela maioria e declarar que os Estados Unidos violaram o acordo, uma afirmação da qual os europeus acreditam ser difícil de discordar. Isso os colocaria do mesmo lado que os outros dois signatários - China e Rússia - que certamente apoiarão o Irã, deixando os Estados Unidos como uma minoria de um.

“O que faremos? O que diremos? ”, indagou um alto funcionário europeu, um dos vários dos países signatários que falaram na condição de anonimato, para discutir abertamente a sensível questão diplomática. “Seria uma grande crise”.

Os europeus insistem que todos com os quais falaram, dentro do governo Trump - exceto o próprio Trump -, manifestaram oposição à revogação da certificação. Mas por algum tempo, consideraram sua decisão uma conclusão inevitável e dirigiram sua atenção ao Congresso, onde até mesmo alguns republicanos, que há muito se opõem ao acordo por considerá-lo profundamente falho, temem que a volta das sanções possa piorar a situação.

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"Estamos trabalhando muito no Congresso", disse o primeiro alto funcionário. "O que entendemos é que não há nenhuma inclinação no Senado para acabar com o acordo votando sanções imediatas. Altos funcionários nos dizem que nada está decidido."

"Mas estamos convencidos de que alguém, como Cotton, vai apresentar um projeto de lei", disse o funcionário, referindo-se ao senador Tom Cotton, Republicano de Arkansas. "Isso criará uma crise entre os republicanos ... Ninguém quer parecer estar defendendo o Irã. Ninguém quer dar a impressão de estar defendendo Obama."

A Casa Branca parecia sinalizar aos republicanos que eles podem decidir não impor de novo imediatamente, as sanções, e o próprio Cotton, um falcão bastante franco em questões que se referem ao Irã, que se reuniu na terça-feira com Trump, disse esta semana que não tem qualquer intenção "no momento, de introduzir... legislação com sanções". Enquanto uma lei aprovada na conclusão do acordo concede ao Congresso 60 dias para reimpor as sanções suspensas pelo acordo com relativa facilidade, os legisladores podem levar mais tempo e aprovar quando quiserem, novas sanções.

"Não tenho certeza de que 60 dias sejam suficientes", disse Cotton na terça-feira perante o Conselho de Relações Exteriores, para que os Estados Unidos coloquem em prática a "diplomacia coerciva" para curvar os outros à sua vontade. A questão poderia, disse, durar até a primavera, não mais que isso.

"Espero que não sejamos obrigados a coagir aliados. Eu prefiro persuadir aliados", disse Cotton. "Muitos deles não exigem muito persuasão, como por exemplo os aliados no Oriente Médio", embora não sejam signatários do acordo. "Mas, no fim, os países terão de tomar uma decisão, se chegarmos a esse ponto. Será que eles querem negociar com a economia de US$ 19 trilhões dos Estados Unidos, ou eles querem lidar com a economia do Irã ... que tem o tamanho da economia de Maryland?"

Mesmo se os líderes políticos europeus não estiverem convencidos, disse ele, as empresas europeias, vulneráveis a sanções dos Estados Unidos, caso continuem negociando com o Irã, poderão ser. E se isso não funcionar, disse: “não há dúvidas quanto a esse ponto: caso sejam forçados a entrar em ação, os Estados Unidos têm a capacidade de destruir totalmente a infraestrutura nuclear do Irã. E se eles decidirem reconstruí-la, poderíamos destruir de novo, até que eles entendam a mensagem”.

Tais comentários enfureceram os europeus. "Gostaria de lembrar aos amigos americanos que quando nós começamos a impor sanções, os Estados Unidos não tinham qualquer comércio com o Irã ... nós arcamos com o ônus" de perdas financeiras, disse Gérard Araud, embaixador da França nos Estados Unidos, semana passada, no Conselho do Atlântico.

Um diplomata ocidental em Genebra disse que os europeus consideram a possibilidade de reviver as regulamentações que a UE usou para defender suas empresas e cidadãos de sanções secundárias dos Estados Unidos na década de 1990. "Todos estão em busca de opções", disse o diplomata.

Qualquer acordo com os Estados Unidos será "muito frágil" quanto à manutenção de incentivos para que o Irã sustente seu lado da barganha, disse um alto executivo de uma grande corporação multinacional. "Isso também funcionará para os integrantes do grupo de linha dura no Irã e ajudará a transferir o poder de volta para eles", disse o executivo.

A antipatia republicana de longa data em relação ao acordo voltou para assombrar seus criadores. Os negociadores previam a chegada de um presidente americano que justificaria continuar nele, desde que o Irã cumprisse as suas obrigações, e não um adversário duro que tenha considerado o acordo como um "constrangimento". A cláusula de reversão expedida em 60 dias, de acordo com a lei dos EUA, foi planejada para punir o Irã rapidamente no caso de violação do acordo e não prevê uma violação da parte dos EUA.

Os europeus ficaram frustrados com o que consideram uma visão equivocada sobre o que diz o acordo e ao que ele se destinava. Enquanto Trump e outros críticos dizem que o Irã obteve um "reembolso" de US$ 100 bilhões, os europeus contestam, alegando que o dinheiro pertencia ao Irã e estava congelado em bancos ocidentais sob sanções. 

Detratores, de sua parte, dizem que todas as restrições do acordo sobre o programa nuclear do Irã entrarão em debate quando algumas disposições do acordo expirarem em 2025, o Irã permanecerá sob os requisitos do Tratado de Não Proliferação Nuclear, que proíbe o desenvolvimento de armas.

Os negociadores do acordo deliberadamente separaram o programa nuclear de suas queixas, muitas, que Trump e outros dizem agora serem motivo para renegociá-lo ou anulá-lo. Acusam o Irã pelo desenvolvimento de mísseis balísticos, pela desestabilização do Oriente Médio e pelo apoio ao terrorismo.

"Podemos falar com a administração sobre como conter a maligna influência do Irã", disse o segundo alto funcionário europeu. "A questão é: os Estados Unidos têm uma estratégia para isso? Talvez eles tenham. Não sei." / Tradução de Claudia Bozzo

*SÃO JORNALISTAS 

 

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